:: CHInewsKI Online - Edição nº 40 - Rio de Janeiro, 8 de Fevereiro de
2002::
Fly Me to The Moon
Santos Dumont, nove e sete da manhã. A correria de um lado para o outro para a ponte aérea para São Paulo. Antonio ali com um chope na mão e um cigarro na outra. A bolsa no chão com cinzas de cigarro dando o tom grisalho.
Esperava o colega de trabalho para irem à sampa resolver problemas de um cliente. Eles não haviam entendido a propaganda feita por eles: Curta Coky até o fim. Não tenha medo. Iam ter que explicar as manifestações ambientalistas contra refrigerantes e explicar a logística do forçar o consumidor que ele é um covarde se não usar o produto.
Foi aí que ela bateu em seu ombro. "Ta cedo pra beber, né?". Ele olhou para seus olhos nissei. Karla. Há quanto tempo. Desde o segundo período de faculdade, quando ela se transferira para uma particular e ele ficara no Fundão. Seu liso cabelo loiro continuava lindo, e parecia que tinha crescido mais que seu um metro e noventa. Não, era o salto alto. Alto não, mirante.
"Oi.", ele respondeu, se levantando e dando um meio abraço. Ela puxou um cigarro de Bali e pediu uma Cuba Libre. Começaram a conversar. Ela estava indo para Sampa também, mas era para curtir a noite após o trabalho.
Acabara
com o namorado há um dia. Ele lembrava bem dele. Como o odiava. Sempre que eles brigavam, parecia que seria a hora deles acontecerem, mas antes que pudessem dar o passo final, ele ligava ou aparecia do nada. Lembrava da noite em claro no Arpoador, ele com seu ukulele ,ela com um violino e ambos com duas garrafas de vinho. Ela já em seu colo, falando de como queria encontrar alguém tão romântico como ele, ele se abaixando, e o sujeito apareceu do nada chorando. Mal ela sabia que ele falara para todos os amigos que comera ela naquela noite. Não sabia por que, mas parecia que estava se enganando, para conseguir se sentir menos arrependido e ferido.
Jorge chegou e a reconheceu. Nunca fora tão amigo dela, mas sabia das histórias que ele contava. Sempre que ele acabava com alguma namorada, parecia comparar a garota a ela. Lembrava que era passado, mas de uma forma ou de outra Antonio não a esquecia em seu subconsciente. Iam no mesmo vôo.
Fizeram o check in, ela com o copo de Cuba Libre na mão. Continuava com seu jeito desengonçado, sem parecer lidar com seu tamanho. Ainda não entendia porque ela abandonara a idéia de ser modelo. Não tinha bunda e tinha seios enormes, uma típica modelo moderna.
Entraram juntos, batendo papo e lembrando dos velhos tempos. Ela toda ora passava a mão em seu ombro, o que ele lembrava bem. Sempre ficara com cara de bunda nesta situação. Ela estava bem longe deles, perto da cabine do piloto, eles pelo meio. Jorge comentava com ele sobre o trabalho, mas ele olhava oniricamente para onde ela estava. Podia ver os cabelos dela brilhando com a luz do Sol que entrava pela janela. Seu colega tentava o convencer que nada mudara, mas o olhar deixara-o atônito.
Até que, enquanto a aeromoça dizia seu habituê, ela veio esbarrando sua bolsa na cabeça de todos e pedindo desculpas até eles. "Será que você ia querer trocar de lugar comigo?", ela disse a Jorge, retornando o olhar para Antonio. "Só queria continuar a ... matar as saudades.", e sorriu como uma criança. Jorge virou-se para seu amigo, querendo ver se seria bom, mas a boca aberta tentando retornar o sorriso mas quase babando de felicidade o fez concluir que nada adiantaria. Levantou-se pedindo juízo para as crianças.
O avião começou a trafegar na pista. Ambos pediram quase que juntos um uísque para uma aeromoça. Riram ao verem que, se já não bastasse todas as semelhanças, ainda tinham esta de tomarem uma bebida na decolagem e aterrisagem do avião, fosse mesmo uma distância pequena. Ela continuava com seu fascínio pela poesia romântica e desenhos góticos, o que a fez ir trabalhar com uma editora de revistas em quadrinhos de artes. Parecia estar indo muito bem. Afinal, não se chega a gerente de contas de uma revista facilmente, ainda por cima uma que é a sua favorita, Sandman. Ela não conseguiu parar de rir ao Antonio contar sua aventura ao chegar a ser um supervisor de marketing de um site de terceira idade. E a cada sorriso, eles se soltavam mais.
Quando começaram a avistar São Paulo, ele falou para ela de sua queda sentimental na faculdade. Ela respondeu que se ele tivesse dado uma palavra sobre isso, ela seria dele na hora. O piloto avisa da aterrisagem. Ele riu dela e ela com o rosto sério e emocionado olhando em sua alma. Ambos pediram juntos mais uns uísques.
Silêncio até a descida.
Desceram do avião se esbarrando, com um claro clima tendo e feliz. Ambos adoraram saber da recíproca, mas sabiam que uma pergunta estava
implícita: e
se fosse agora?
Pegaram as malas e tentavam se despedir. Antonio resolveu perguntar, já que ela trabalharia perto deles, se ela sabia se havia um restaurante legal por ali (como se ele já não soubesse). Jorge cortou na hora "Porque você não a chama logo, porra? Vocês parecem dois adolescentes saindo pela primeira vez!". Ambos riram exatamente como dois púberes cheios de hormônios, mas na verdade era medo. Trocaram o telefone celular. Ela escreveu Tommy. Ela lembrava do apelido íntimo dos dois. Só ela o chamara assim em toda a vida, e ela sabia o quanto ele adorava e queria isso.
Saíram do aeroporto e resolveram rachar o táxi. Ela desceu primeiro, a cinco quadras de onde eles ficariam, na Pinheiros. Ele virou-se para olha-la como uma criança indo embora da casa de um amigo de infância, e ela também estática o vendo sumir.
-Cara, você não está saindo com a Melissa?- disse Jorge.
-Eu sei, mas isso é um milagre!- disse animadamente Antonio.
-Hm?
-Você já pensou se você pudesse voltar atrás e consertar um erro, algo que você achava que devia ter feito ou não devia ter feito? Isso acaba de me acontecer.
-Não sei, cara. Às vezes eu acho que o que acontece era pra acontecer.
-Mas isso é um milagre! E desta vez eu tive todos os sinais!
-Cara, deixa isso pra lá, chupa uma bala pra tirar este teu bafo...você não ta bêbado não, né?
-Não. - disse, pegando e preenchendo o voucher. - Só...feliz.
Antonio ligou logo que chegou para Melissa, dizendo que teria que ficar até a manhã seguinte, para resolver o problema. Ela estranhou, afinal quem tem que resolver problemas Sábado de manhã? Ele passou uma conversa e convenceu-a.
Depois da reunião com a equipe de marketing da empresa, Jorge comentou :
"Você devia beber mais vezes antes de reuniões.". Não foi a toa. Ele ficara calado, só escutando Antonio convencer velhos gerentes de que estava tudo devidamente pensado e bem elaborado. Saíram da reunião com a certeza de que o contrato ia ser renovado e a empresa duraria mais, apesar de andar mal das pernas.
Deram umas voltas em uma galeria, até que Antonio de fora de uma loja, escondido em uma prateleira, um álbum que embalara seus encontros com Karla.
Entrou e comprou para presente. Recebeu a ligação, ambos sem graça.
Marcaram
ali mesmo na galeria, num McDonald's.
Não demorou nem dez minutos para que ela chegasse esbaforida. Ele brincou de comerem num fast food, se era para apresentar isso ele já conhecia.
Pediram
ambos o número quatro com molho barbecue. Sentaram-se um ao lado do outro, com poucas palavras trocadas. O queixo de Karla se sujou ao comer uma batata e ele fora limpar com o dedo. Ela olhara ele nos olhos e ele pegou o presente. "Para lembrar dos velhos tempos". Ela abriu. Portishead, Dummy.
Abraçou-o e lhe deu um beijo. "O que te fez demorar tanto?", ele perguntou durante o beijo. "Estava perdida em um caminho da vida", ela respondeu sem parar de o beijar.
E ficaram, e ficaram, e ficaram. Comeram um sanduíche frio, dando batatas um na boca do outro, com um sorriso de felicidade enorme na boca. Não viam o taiê e o terno um do outro, viam-se como se lembravam. Como achavam que devia ter acontecido. Deram uma volta na galeria de mãos dadas. Já tinham feito isto, mas não como agora. Agora podiam assumir o porquê da mão que não queriam antes assumir.
Tiveram que se despedir, a reunião dela começava as duas e meia. Foram andando pelas ruas esbarrando em várias pessoas, sem tirar os olhos um do outro, sem quase trocarem palavras. Alguns gritavam para olhar por onde andam, outros suspiravam ao ver a cena.
Até as cinco da tarde, ficaram se ligando de quinze em quinze minutos.
Ambos
foram brilhantes em suas reuniões. Jorge até conseguira marcar uma reunião com o representante da multinacional, querendo levar a propaganda para fora da Internet. Mas pediu para Antonio beber e se apaixonar antes da reunião.
Antonio deixou-o no aeroporto.
-Você tem certeza do que está fazendo?
-Nunca tive tanta certeza na minha vida.
-Boa sorte. - disse, dando um abraço forte no amigo como nunca dera. - Acho que vai precisar. Qualquer coisa, me liga, a menos que eu esteja com duas gêmeas de dezesseis anos na cama.
-Babaca. - respondeu Antonio, indo para um orelhão.
Marcaram na porta do hotel onde ela ficaria. Foram para o restaurante de mãos dadas. Ela o chamando de Tommy, que estranhava como parecia que estiveram juntos por anos. E de certa forma estiveram.
Tomaram alguns drinques, bateram um pouco de papo, mas ficaram mais se beijando. Após o terceiro Martini, ele falou que tinha que pegar um quarto.
Ela disse que era melhor irem para o dela. Correram pelo corredor e subiram se amassando no elevador entre executivos que estranhavam duas pessoas que aparentavam ser mais que púberes assim, mas invejando-os por isso.
Direto para a cama. E por lá ficaram boas duas horas. As melhores horas de sexo da vida de ambos. Ela fora pegar um baseado na mala. Ele odiava isso, mas no estado em que estava, não iria reclamar. Nunca gostara deste lado dela.
Olharam para o chão e viram que a cal e a camisa dele estavam totalmente rasgadas. Ela riu, falando que seria bem legal sair com ele só com o blaiser, bem sexy, mas decidiu descer para comprar algo para ele.
Logo que ela saiu, ele ligou para Melissa. Ela estranhara-o falando baixo, ríspido e seco, mas acreditara nele. Estava amando, e ele sem se importar nem um pouco com ela. Reencontrara o amor de sua vida, e nada se colocaria no caminho.
Karla voltara rápido, com uma camisa florida e uma bermuda. Ele se segurou ao máximo para não xinga-la, especialmente quando ele riu disso. "Eu sei que você odeia, mas agora não tem escolha. E sempre quis te ver assim.".
"Então
vem por.", ele disse.
Mais uma hora. Conversaram bastante depois, e ela o fez dar um trago em seu baseado. Ficara alto muito rápido. Acabara falando que estava namorando. Ela também revelara que só tinha tido uma briga com seu namorado.
Então, o desafiara. Desafiara a acabarem os relacionamentos e entrarem de cabeça nisso. Tommy não pensou duas vezes, pegou o telefone,e acabou, quase que literalmente, com Melissa. Ela chorava em prantos do outro lado, mas ele olhava para a mulher em sua frente, mandava beijos, e continuava.
Desligara
na cara e desligara seu celular. Karla fizera o mesmo, mas muito mais sutilmente. Parecia que sue namorado não se importava. E bateu o telefone.
Ele correra para seus braços, mas ela se esguiara e fora para sua mala, pegar um vestido preto bem curto e brilhante. "E então, vamos comemorar?".
Ele foi tentar agarra-la de novo, mas ela saira."Não, é sério. Vamos dançar e comemorar.". Apesar de uma voz dentro dele se preparar para berrar, ele foi hipnoticamente, com a bermuda e a camisa florida.
Forma parar em um bar GLS. Ele, sem o costume de dançar algo que não fosse rock, ficara no passinho prum lado, passinho para o outro. E ela se acabando na pista. Ele resolvera tomar um drinque para relaxar. Um gay gringo passara a mão em sua bunda e falara algo em alemão, talvez. Ele saiu com duas bebidas correndo voltar para ela.
E lá estava ela.
Com um negrão rondo em sua bunda e uma mulher esfregando o rosto em todo o seu corpo, com uma maquiagem que só o fazia lembrar-se de Robert Smith ou do Corvo.
Estático.
Ela puxou-o para o meio.
Estático. Lembranças vindo.
Karla pôs ele se roçando na mulher e puxou a mão do negrão para sua bunda. O negrão esticou o pescoço e riu para Tommy.
Dinâmico.
Tacou um copo no chão. Virou outro. Arrancou o braço de sua bunda e jogou a mulher no chão.
Lembranças.
Ataque de raiva. Fulminante. Cento e oitenta batidas por minuto. Falava coisas que nem sabia do que eram, mas sabia que ofendia. Como sempre foi.
Carreira de modelo. A necessidade de se sentir-se sedutora para toda e qualquer pessoa. Jogos de ciúme o usando com o namorado.
Ele calou-se com um tapa. "Cala a boca, to caindo fora.", ela disse.
Ele ficou parado um minuto e depois saiu correndo atrás dela. Tentava agarra-la, mas ela fugia.
Todos os poemas que fizeram juntos. As madrugadas bebendo e vendo teve ate o sol raiar. O Sol raiar no Arpoador.
Jogou-se em seus pés, abrindo um clarão na boate. Ela rindo sem graça, sem saber como tirar a mão dele de seu antebraço.
O rosto dela ao sair com sue namorado do Arpoador, cochichando em seu ouvido e depois ambos olhando para ela.
O olhar.
O jogo de ciúmes.
O sorriso maquiavélico e sedutor.
"Você me conhecia. Por que faz isso?"
O sorriso.
Ele soltou.
Ela foi embora. Ele ficou ali de joelhos. Por alguns bons minutos. Viu a histórias dos dois passando como dizem que ávida de alguém passa em sua morte. E voltou para o bar. E nem ligou para nenhuma mão na bunda nem mulher se rondo. Só queria beber.
Voltou para o hotel. A pé. Algumas pessoas riam de sua roupa na rua.
Ele não
ligava. Só queria fumar e voltar pra casa.
Sua mala estava na recepção. Tinha um bilhete dentro. Desculpe por tudo, asm saiba que fui sincera. Segui meus sentimentos.
"Eu também.". Pensou. Eu também.
Foi para o aeroporto. Nenhum vo6o devido a chuva até as sete de manhã.
Resolveu ir pra Rodoviária. Arranjou um lugar em quarenta minutos. Foi para uma lanchonete e pediu uma cacha.
Porra, só queria ir pra casa...casa...
Ligou o celular e ligou para Melissa. Discutiram um pouco, mas ela não o queria de volta. Não aceitou o que houve. Ele cortara a paixão pela raiz.
Chifre. E insensibilidade.
Ligou para Jorge.
-Sorte sua cara, não encontrei nenhuma adolescente. - dizia de algum bar com música ao vivo.
-Há há - disse um desanimado Antonio, que deixara Tommy em São Paulo -Deu merda, né?
-Deu...
-Te falei, certas coisas não são pra acontecer. Passou do ponto. A vida sabe o que...
-Posso ficar na sua casa por um tempo?
-Pode. Me encontra no Empório.
::Tommy Molto::
2002::
Fly Me to The Moon
Santos Dumont, nove e sete da manhã. A correria de um lado para o outro para a ponte aérea para São Paulo. Antonio ali com um chope na mão e um cigarro na outra. A bolsa no chão com cinzas de cigarro dando o tom grisalho.
Esperava o colega de trabalho para irem à sampa resolver problemas de um cliente. Eles não haviam entendido a propaganda feita por eles: Curta Coky até o fim. Não tenha medo. Iam ter que explicar as manifestações ambientalistas contra refrigerantes e explicar a logística do forçar o consumidor que ele é um covarde se não usar o produto.
Foi aí que ela bateu em seu ombro. "Ta cedo pra beber, né?". Ele olhou para seus olhos nissei. Karla. Há quanto tempo. Desde o segundo período de faculdade, quando ela se transferira para uma particular e ele ficara no Fundão. Seu liso cabelo loiro continuava lindo, e parecia que tinha crescido mais que seu um metro e noventa. Não, era o salto alto. Alto não, mirante.
"Oi.", ele respondeu, se levantando e dando um meio abraço. Ela puxou um cigarro de Bali e pediu uma Cuba Libre. Começaram a conversar. Ela estava indo para Sampa também, mas era para curtir a noite após o trabalho.
Acabara
com o namorado há um dia. Ele lembrava bem dele. Como o odiava. Sempre que eles brigavam, parecia que seria a hora deles acontecerem, mas antes que pudessem dar o passo final, ele ligava ou aparecia do nada. Lembrava da noite em claro no Arpoador, ele com seu ukulele ,ela com um violino e ambos com duas garrafas de vinho. Ela já em seu colo, falando de como queria encontrar alguém tão romântico como ele, ele se abaixando, e o sujeito apareceu do nada chorando. Mal ela sabia que ele falara para todos os amigos que comera ela naquela noite. Não sabia por que, mas parecia que estava se enganando, para conseguir se sentir menos arrependido e ferido.
Jorge chegou e a reconheceu. Nunca fora tão amigo dela, mas sabia das histórias que ele contava. Sempre que ele acabava com alguma namorada, parecia comparar a garota a ela. Lembrava que era passado, mas de uma forma ou de outra Antonio não a esquecia em seu subconsciente. Iam no mesmo vôo.
Fizeram o check in, ela com o copo de Cuba Libre na mão. Continuava com seu jeito desengonçado, sem parecer lidar com seu tamanho. Ainda não entendia porque ela abandonara a idéia de ser modelo. Não tinha bunda e tinha seios enormes, uma típica modelo moderna.
Entraram juntos, batendo papo e lembrando dos velhos tempos. Ela toda ora passava a mão em seu ombro, o que ele lembrava bem. Sempre ficara com cara de bunda nesta situação. Ela estava bem longe deles, perto da cabine do piloto, eles pelo meio. Jorge comentava com ele sobre o trabalho, mas ele olhava oniricamente para onde ela estava. Podia ver os cabelos dela brilhando com a luz do Sol que entrava pela janela. Seu colega tentava o convencer que nada mudara, mas o olhar deixara-o atônito.
Até que, enquanto a aeromoça dizia seu habituê, ela veio esbarrando sua bolsa na cabeça de todos e pedindo desculpas até eles. "Será que você ia querer trocar de lugar comigo?", ela disse a Jorge, retornando o olhar para Antonio. "Só queria continuar a ... matar as saudades.", e sorriu como uma criança. Jorge virou-se para seu amigo, querendo ver se seria bom, mas a boca aberta tentando retornar o sorriso mas quase babando de felicidade o fez concluir que nada adiantaria. Levantou-se pedindo juízo para as crianças.
O avião começou a trafegar na pista. Ambos pediram quase que juntos um uísque para uma aeromoça. Riram ao verem que, se já não bastasse todas as semelhanças, ainda tinham esta de tomarem uma bebida na decolagem e aterrisagem do avião, fosse mesmo uma distância pequena. Ela continuava com seu fascínio pela poesia romântica e desenhos góticos, o que a fez ir trabalhar com uma editora de revistas em quadrinhos de artes. Parecia estar indo muito bem. Afinal, não se chega a gerente de contas de uma revista facilmente, ainda por cima uma que é a sua favorita, Sandman. Ela não conseguiu parar de rir ao Antonio contar sua aventura ao chegar a ser um supervisor de marketing de um site de terceira idade. E a cada sorriso, eles se soltavam mais.
Quando começaram a avistar São Paulo, ele falou para ela de sua queda sentimental na faculdade. Ela respondeu que se ele tivesse dado uma palavra sobre isso, ela seria dele na hora. O piloto avisa da aterrisagem. Ele riu dela e ela com o rosto sério e emocionado olhando em sua alma. Ambos pediram juntos mais uns uísques.
Silêncio até a descida.
Desceram do avião se esbarrando, com um claro clima tendo e feliz. Ambos adoraram saber da recíproca, mas sabiam que uma pergunta estava
implícita: e
se fosse agora?
Pegaram as malas e tentavam se despedir. Antonio resolveu perguntar, já que ela trabalharia perto deles, se ela sabia se havia um restaurante legal por ali (como se ele já não soubesse). Jorge cortou na hora "Porque você não a chama logo, porra? Vocês parecem dois adolescentes saindo pela primeira vez!". Ambos riram exatamente como dois púberes cheios de hormônios, mas na verdade era medo. Trocaram o telefone celular. Ela escreveu Tommy. Ela lembrava do apelido íntimo dos dois. Só ela o chamara assim em toda a vida, e ela sabia o quanto ele adorava e queria isso.
Saíram do aeroporto e resolveram rachar o táxi. Ela desceu primeiro, a cinco quadras de onde eles ficariam, na Pinheiros. Ele virou-se para olha-la como uma criança indo embora da casa de um amigo de infância, e ela também estática o vendo sumir.
-Cara, você não está saindo com a Melissa?- disse Jorge.
-Eu sei, mas isso é um milagre!- disse animadamente Antonio.
-Hm?
-Você já pensou se você pudesse voltar atrás e consertar um erro, algo que você achava que devia ter feito ou não devia ter feito? Isso acaba de me acontecer.
-Não sei, cara. Às vezes eu acho que o que acontece era pra acontecer.
-Mas isso é um milagre! E desta vez eu tive todos os sinais!
-Cara, deixa isso pra lá, chupa uma bala pra tirar este teu bafo...você não ta bêbado não, né?
-Não. - disse, pegando e preenchendo o voucher. - Só...feliz.
Antonio ligou logo que chegou para Melissa, dizendo que teria que ficar até a manhã seguinte, para resolver o problema. Ela estranhou, afinal quem tem que resolver problemas Sábado de manhã? Ele passou uma conversa e convenceu-a.
Depois da reunião com a equipe de marketing da empresa, Jorge comentou :
"Você devia beber mais vezes antes de reuniões.". Não foi a toa. Ele ficara calado, só escutando Antonio convencer velhos gerentes de que estava tudo devidamente pensado e bem elaborado. Saíram da reunião com a certeza de que o contrato ia ser renovado e a empresa duraria mais, apesar de andar mal das pernas.
Deram umas voltas em uma galeria, até que Antonio de fora de uma loja, escondido em uma prateleira, um álbum que embalara seus encontros com Karla.
Entrou e comprou para presente. Recebeu a ligação, ambos sem graça.
Marcaram
ali mesmo na galeria, num McDonald's.
Não demorou nem dez minutos para que ela chegasse esbaforida. Ele brincou de comerem num fast food, se era para apresentar isso ele já conhecia.
Pediram
ambos o número quatro com molho barbecue. Sentaram-se um ao lado do outro, com poucas palavras trocadas. O queixo de Karla se sujou ao comer uma batata e ele fora limpar com o dedo. Ela olhara ele nos olhos e ele pegou o presente. "Para lembrar dos velhos tempos". Ela abriu. Portishead, Dummy.
Abraçou-o e lhe deu um beijo. "O que te fez demorar tanto?", ele perguntou durante o beijo. "Estava perdida em um caminho da vida", ela respondeu sem parar de o beijar.
E ficaram, e ficaram, e ficaram. Comeram um sanduíche frio, dando batatas um na boca do outro, com um sorriso de felicidade enorme na boca. Não viam o taiê e o terno um do outro, viam-se como se lembravam. Como achavam que devia ter acontecido. Deram uma volta na galeria de mãos dadas. Já tinham feito isto, mas não como agora. Agora podiam assumir o porquê da mão que não queriam antes assumir.
Tiveram que se despedir, a reunião dela começava as duas e meia. Foram andando pelas ruas esbarrando em várias pessoas, sem tirar os olhos um do outro, sem quase trocarem palavras. Alguns gritavam para olhar por onde andam, outros suspiravam ao ver a cena.
Até as cinco da tarde, ficaram se ligando de quinze em quinze minutos.
Ambos
foram brilhantes em suas reuniões. Jorge até conseguira marcar uma reunião com o representante da multinacional, querendo levar a propaganda para fora da Internet. Mas pediu para Antonio beber e se apaixonar antes da reunião.
Antonio deixou-o no aeroporto.
-Você tem certeza do que está fazendo?
-Nunca tive tanta certeza na minha vida.
-Boa sorte. - disse, dando um abraço forte no amigo como nunca dera. - Acho que vai precisar. Qualquer coisa, me liga, a menos que eu esteja com duas gêmeas de dezesseis anos na cama.
-Babaca. - respondeu Antonio, indo para um orelhão.
Marcaram na porta do hotel onde ela ficaria. Foram para o restaurante de mãos dadas. Ela o chamando de Tommy, que estranhava como parecia que estiveram juntos por anos. E de certa forma estiveram.
Tomaram alguns drinques, bateram um pouco de papo, mas ficaram mais se beijando. Após o terceiro Martini, ele falou que tinha que pegar um quarto.
Ela disse que era melhor irem para o dela. Correram pelo corredor e subiram se amassando no elevador entre executivos que estranhavam duas pessoas que aparentavam ser mais que púberes assim, mas invejando-os por isso.
Direto para a cama. E por lá ficaram boas duas horas. As melhores horas de sexo da vida de ambos. Ela fora pegar um baseado na mala. Ele odiava isso, mas no estado em que estava, não iria reclamar. Nunca gostara deste lado dela.
Olharam para o chão e viram que a cal e a camisa dele estavam totalmente rasgadas. Ela riu, falando que seria bem legal sair com ele só com o blaiser, bem sexy, mas decidiu descer para comprar algo para ele.
Logo que ela saiu, ele ligou para Melissa. Ela estranhara-o falando baixo, ríspido e seco, mas acreditara nele. Estava amando, e ele sem se importar nem um pouco com ela. Reencontrara o amor de sua vida, e nada se colocaria no caminho.
Karla voltara rápido, com uma camisa florida e uma bermuda. Ele se segurou ao máximo para não xinga-la, especialmente quando ele riu disso. "Eu sei que você odeia, mas agora não tem escolha. E sempre quis te ver assim.".
"Então
vem por.", ele disse.
Mais uma hora. Conversaram bastante depois, e ela o fez dar um trago em seu baseado. Ficara alto muito rápido. Acabara falando que estava namorando. Ela também revelara que só tinha tido uma briga com seu namorado.
Então, o desafiara. Desafiara a acabarem os relacionamentos e entrarem de cabeça nisso. Tommy não pensou duas vezes, pegou o telefone,e acabou, quase que literalmente, com Melissa. Ela chorava em prantos do outro lado, mas ele olhava para a mulher em sua frente, mandava beijos, e continuava.
Desligara
na cara e desligara seu celular. Karla fizera o mesmo, mas muito mais sutilmente. Parecia que sue namorado não se importava. E bateu o telefone.
Ele correra para seus braços, mas ela se esguiara e fora para sua mala, pegar um vestido preto bem curto e brilhante. "E então, vamos comemorar?".
Ele foi tentar agarra-la de novo, mas ela saira."Não, é sério. Vamos dançar e comemorar.". Apesar de uma voz dentro dele se preparar para berrar, ele foi hipnoticamente, com a bermuda e a camisa florida.
Forma parar em um bar GLS. Ele, sem o costume de dançar algo que não fosse rock, ficara no passinho prum lado, passinho para o outro. E ela se acabando na pista. Ele resolvera tomar um drinque para relaxar. Um gay gringo passara a mão em sua bunda e falara algo em alemão, talvez. Ele saiu com duas bebidas correndo voltar para ela.
E lá estava ela.
Com um negrão rondo em sua bunda e uma mulher esfregando o rosto em todo o seu corpo, com uma maquiagem que só o fazia lembrar-se de Robert Smith ou do Corvo.
Estático.
Ela puxou-o para o meio.
Estático. Lembranças vindo.
Karla pôs ele se roçando na mulher e puxou a mão do negrão para sua bunda. O negrão esticou o pescoço e riu para Tommy.
Dinâmico.
Tacou um copo no chão. Virou outro. Arrancou o braço de sua bunda e jogou a mulher no chão.
Lembranças.
Ataque de raiva. Fulminante. Cento e oitenta batidas por minuto. Falava coisas que nem sabia do que eram, mas sabia que ofendia. Como sempre foi.
Carreira de modelo. A necessidade de se sentir-se sedutora para toda e qualquer pessoa. Jogos de ciúme o usando com o namorado.
Ele calou-se com um tapa. "Cala a boca, to caindo fora.", ela disse.
Ele ficou parado um minuto e depois saiu correndo atrás dela. Tentava agarra-la, mas ela fugia.
Todos os poemas que fizeram juntos. As madrugadas bebendo e vendo teve ate o sol raiar. O Sol raiar no Arpoador.
Jogou-se em seus pés, abrindo um clarão na boate. Ela rindo sem graça, sem saber como tirar a mão dele de seu antebraço.
O rosto dela ao sair com sue namorado do Arpoador, cochichando em seu ouvido e depois ambos olhando para ela.
O olhar.
O jogo de ciúmes.
O sorriso maquiavélico e sedutor.
"Você me conhecia. Por que faz isso?"
O sorriso.
Ele soltou.
Ela foi embora. Ele ficou ali de joelhos. Por alguns bons minutos. Viu a histórias dos dois passando como dizem que ávida de alguém passa em sua morte. E voltou para o bar. E nem ligou para nenhuma mão na bunda nem mulher se rondo. Só queria beber.
Voltou para o hotel. A pé. Algumas pessoas riam de sua roupa na rua.
Ele não
ligava. Só queria fumar e voltar pra casa.
Sua mala estava na recepção. Tinha um bilhete dentro. Desculpe por tudo, asm saiba que fui sincera. Segui meus sentimentos.
"Eu também.". Pensou. Eu também.
Foi para o aeroporto. Nenhum vo6o devido a chuva até as sete de manhã.
Resolveu ir pra Rodoviária. Arranjou um lugar em quarenta minutos. Foi para uma lanchonete e pediu uma cacha.
Porra, só queria ir pra casa...casa...
Ligou o celular e ligou para Melissa. Discutiram um pouco, mas ela não o queria de volta. Não aceitou o que houve. Ele cortara a paixão pela raiz.
Chifre. E insensibilidade.
Ligou para Jorge.
-Sorte sua cara, não encontrei nenhuma adolescente. - dizia de algum bar com música ao vivo.
-Há há - disse um desanimado Antonio, que deixara Tommy em São Paulo -Deu merda, né?
-Deu...
-Te falei, certas coisas não são pra acontecer. Passou do ponto. A vida sabe o que...
-Posso ficar na sua casa por um tempo?
-Pode. Me encontra no Empório.
::Tommy Molto::

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