:: CHInewsKI Online - Edição nº 46 - Rio de Janeiro, 22 de Agosto de
2002::
Na Travessa do Poeta
Foi na travessa dos poetas que senti a inspiração. Era raiva. Era
mágoa. Tinha que escrever. Havia tentado escrever na mesma noite
anterior a poesia, mas ela não queria sair por teclado. Ela me disse
que não gostava de coisas eletrônicas, eram frias demais. Tentei
então falar, cantar a poesia. Mas ela não saia. Vinha e me dizia,
não, agora não, não é hora.
Mas na travessa ela chega pra mim e diz que não quer falar. Pareceu-
me que não precisava dela, ela estava me sacaneando, eu podia criar a
poesia, pura e bela. E dei as costas. Treze passos largos e dois
curtos depois, vi que perdera o fio da meada. Voltei-me e não a vi
mais lá.
Procurei em todos os lugares onde ela já me aparecera: nos mesmos
restaurantes, nas mesmas ruas, nas lojas de livro e música que me
sorria com um soneto de ponta a ponta, até no mosteiro de são Bento,
onde tantas vezes as pessoas que passavam via a poesia fluindo pelo
ar e sentiam-se mais felizes por estarem vivos e resolviam caçar suas
poesias.
Mas não a encontrei. Procurei aquela poesia, mas não a encontrei.
Fazem-se somente minutos que não a sinto por perto e já parecem dias.
Pensar que existem pessoas que vivem sem suas liras de vinte anos....
Sento-me então em meu trabalho, digitado palavras que para olhos
vesgos parecem ser documentações, mas são escritos. Apenas escritos.
Sinto a poesia por perto, mas ela vem tão distorcida... Parece querer
que me explique para ela por ter tido o desejo de tê-la de novo. De
ser. Ela me susurra nos ouvidos que devia ser assim, que é assim que
as coisas são. E me revolto, e me bato, e me canso, e me espanto. Que
apesar de tudo, as letras acabam fluindo. Por uma dor constante,
vinda do ventrículo direito , ou do átrio, não tenho certeza, mas
dali do coração. Um infarte por uma poesia. Mas dizem que sexo também
tira sete minutos de sua vida por vez. Então, pego-me no dilema de
sofrer e viver ou morrer.
A poesia vem e me lembra de Thoreau, que tentou espantar os males da
vida e descobriu que não viveu.
Talvez encontre uma outra travessa. Que possa me reencontrar com a
minha velha poesia. Ou com alguma poesia. Mas que não me faça me
perder numa esquina escura. Porque lá vivem os contos de terror, e
isso o Rio de Janeiro já tem demais. Quero um pouco do Rio Antigo.
Mesmo que seguido do soco de um hooligan londrino.
::Tommy Molto::
2002::
Na Travessa do Poeta
Foi na travessa dos poetas que senti a inspiração. Era raiva. Era
mágoa. Tinha que escrever. Havia tentado escrever na mesma noite
anterior a poesia, mas ela não queria sair por teclado. Ela me disse
que não gostava de coisas eletrônicas, eram frias demais. Tentei
então falar, cantar a poesia. Mas ela não saia. Vinha e me dizia,
não, agora não, não é hora.
Mas na travessa ela chega pra mim e diz que não quer falar. Pareceu-
me que não precisava dela, ela estava me sacaneando, eu podia criar a
poesia, pura e bela. E dei as costas. Treze passos largos e dois
curtos depois, vi que perdera o fio da meada. Voltei-me e não a vi
mais lá.
Procurei em todos os lugares onde ela já me aparecera: nos mesmos
restaurantes, nas mesmas ruas, nas lojas de livro e música que me
sorria com um soneto de ponta a ponta, até no mosteiro de são Bento,
onde tantas vezes as pessoas que passavam via a poesia fluindo pelo
ar e sentiam-se mais felizes por estarem vivos e resolviam caçar suas
poesias.
Mas não a encontrei. Procurei aquela poesia, mas não a encontrei.
Fazem-se somente minutos que não a sinto por perto e já parecem dias.
Pensar que existem pessoas que vivem sem suas liras de vinte anos....
Sento-me então em meu trabalho, digitado palavras que para olhos
vesgos parecem ser documentações, mas são escritos. Apenas escritos.
Sinto a poesia por perto, mas ela vem tão distorcida... Parece querer
que me explique para ela por ter tido o desejo de tê-la de novo. De
ser. Ela me susurra nos ouvidos que devia ser assim, que é assim que
as coisas são. E me revolto, e me bato, e me canso, e me espanto. Que
apesar de tudo, as letras acabam fluindo. Por uma dor constante,
vinda do ventrículo direito , ou do átrio, não tenho certeza, mas
dali do coração. Um infarte por uma poesia. Mas dizem que sexo também
tira sete minutos de sua vida por vez. Então, pego-me no dilema de
sofrer e viver ou morrer.
A poesia vem e me lembra de Thoreau, que tentou espantar os males da
vida e descobriu que não viveu.
Talvez encontre uma outra travessa. Que possa me reencontrar com a
minha velha poesia. Ou com alguma poesia. Mas que não me faça me
perder numa esquina escura. Porque lá vivem os contos de terror, e
isso o Rio de Janeiro já tem demais. Quero um pouco do Rio Antigo.
Mesmo que seguido do soco de um hooligan londrino.
::Tommy Molto::

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