Friday, June 02, 2006

:: CHInewsKI Online - Edição nº 46 - Rio de Janeiro, 22 de Agosto de
2002::

Vozes

Por favor, fique mais um pouco, ela implorava.
Tenho que ir, dizia ele, pedindo a conta para o garçon. Amanhã tenho
que ir cedo para São Paulo.
Ela pagou outro drinque para ele, Tequila Sunrise, um dos mais caros.
Como sabia que eu gostava? Ela riu. Ele sorriu meia boca, guardou a
conta junto do maço e bebericou do drinque. Fala mais, vai. Falar o
que? Já te contei bastante para alguém que não conheço. Ela pôs a mão
em sua coxa esquerda e vez cara de quem queria mais. Ele pensou em
leva-la para casa, mas tinha algo estranho com esta garota. Ela mal
falava, mas não queria parar de escutar.
Começou a falar de sua reunião do dia seguinte, que estava nervoso e
tal. Ela continuava com a mão na coxa, apertando-a, como se sentisse
que ele estava falando mas querendo e come-la a noite toda. Ela era
linda. Tinha um rosto tão... Angelical. Tinha algo errado, tinha que
ter algo errado. Achava que eram suas expressões. Enquanto ele
pensava, podia jurar que ela respondia com expressões suas sensações.
Mas com um olhar fixo em seu rosto, devorando cada palavra com uma
concentração enorme. Como se a única coisa que ela queria no mundo
era escutar suas histórias.
Não, quero mesmo escutar, ela disse. Ele calou-se. O que você disse?
Por que você disse isso? Nada. Ele falou boa noite e levantou-se. Ela
puxou-o pela coxa, mas ele saiu apavorado com o olhar dela. Chegava a
aproximar-se de obcecado. Seguiu-o até o caixa, pedindo desculpas,
mas que ela tinha um problema que escuta-lo estava ajudando a
resolver. A boate estava cheia, e a fila idem. Sinto muito, mas você
é meio.... estranha. Ela viu que não ia adiantar de nada. Deu-lhe um
beijo forte na boca, agarrou-o com as unhas. Sai, disse ele
empurrando-a, pegando seu cartão e indo-se pela porta.
Virou-se e olhou para cada um. As dores de cabeça voltavam
lentamente. Parecia um farejador atrás da caça. Um rapaz na parede
pensou nela. Correu até lá, o envolveu com sua perna, apertou seu
corpo no dele puxando-o pela bunda e lambendo sue pescoço. Ela
afastou-a meio sem força. Que é isso, mulher? Que porra é essa? Ora,
você não me quer? Ham, quero, mas... quem é você? Qual o seu nome?
Brenda, e o seu? Não parava de lambê-lo no pescoço, tentando beija-
lo, levando sua mão para a parte da frente da calça. Pedro, mas por
que você está fazendo isso? Você não me quer? Você não me queria? Eu
só te olhei porque você estava aqui na minha frente. Não, você me
queria. E apertou seu pau, machucando o saco dele de uma forma que
lhe deu uma ereção maior ainda.
Jogou-a para o lado. Você é estranha, mulher. Sai de mim. Ela viu que
o cara estava querendo algo mais romântico. Na ia adiantar mais.
Continuou a caça de alguém. Tentava se meter em qualquer roda de
amigos que estivessem conversando, mas todos a olhavam , a
estranhavam. Sim, era para ser estranhada, ela sabia. Mas que
falassem com ela. Um cara na frente quase fora atropelado e não
pensava nada com nexo. O garçon ia cuspir no copo do sujeito que o
chamou de escravo. Não!
Procurou um bêbado. Não podia ser difícil de encontrar. No bar, é
claro. Um grupo de bêbados. Não, não servia, eles não iam deixa-la
junto, e ela não queria nada grupal. No canto, um cara sozinho com
olhos semicerrados olhando para o copo.
Oi, está sozinho? Ham? Está sozinho? Quem é você? Eu não to bêbado
não, pode zentá. Ela sentou, vendo que o sujeito não conseguia falar
coisa com coisa, mas não parava de falar ao menos. Ficou o resto da
noite com aquele bêbado. Usou-o, revezando comida e refrigerantes com
doses de bebida, para mantê-lo bêbado, porém acordado e em condições
de conversar.
Arrastou-o para o motel, após uma boa chupeta no banheiro, evitando
que ele vomitasse. Ela não o deixou respirar. Ficara até com medo
dele ter um enfarte, tamanha a falta de fôlego que ele estava. Após
uma boa vomitada no banheiro, enquanto ela fazia tudo para se
concentrar na música, ele voltara inteiro, para o pesadelo dela.
Tenho que ir pra casa, minha esposa está me esperando. Por favor,
fica mais. Não posso, se você não tem ninguém não sabe como é. Por
favor, não me deixe só. Tenho que ir. Então, no mínimo, me leve para
casa.
E assim o fez. Levou-a. Tentou manter-se quieto, mas ela não deixava,
perguntando o tempo todo sobre qualquer coisa, até colocando o
taxista na roda. Ela subiu correndo para casa e trancou-se no quarto
com a música no máximo. Não apagara as luzes, sempre achara que sem
luz o som chegava mais rápido. O porteiro não fechara a porta, e
estava chifrando a mulher. Merda, ela continuava sentindo. O cachorro
queria ir passear, mas o dono dormia. Tudo vinha em sua cabeça e ela
não conseguia agüentar. Escutava tudo ao seu redor, ao redor do
planeta, alguns até fazendo a volta e atingindo sua cabeça um segundo
depois (ou menos). Aumentou o som, mas não adiantava. Berrava e
chorava. Urrava com um sentimento de dor e tristeza que já fizera
várias pessoas se mudarem da vizinhança. Tentaram-na expulsar, mas
não conseguiam. Ela sempre tinha algo misterioso sobre a vida
particular de cada um para usar como ás na manga.
Berrou a noite toda, até seu corpo cair sem forças e seu espírito se
regurgitar de dor pelo espaço.




::Paulo marinho::

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