Friday, June 02, 2006

::CHInewsKI Online - Edição nº 31 - Rio de Janeiro, 6 de Novembro de
2001::

Canção pra você viver mais



Ta perto, né? Faltam só...duas semanas. E é foda não dar nem para
conversar
sobre isso. Você não deixa. Qualquer coisa que falo, já vem com
milhares de
teorias loucas. E fica o dia todo me enchendo o saco sobre isso. Isso
que dá
não ter vida.
É tão estranho imaginar saber a data da morte. Saber que em certo dia
você
tem cinqüenta por cento de chances de morrer. E não poder fazer nada. Se
soubéssemos desde novos isso, seria ótimo. Planejaríamos nossa vida de
outra
maneira. Saberíamos o tempo que temos para fazer tudo. Acho que daria até
uma responsabilidade maior para as pessoas. "Olha, dia 14 de Demebro
de 2051
você vai morrer. Você ainda tem cinqüenta anos pela frente, então
planeje-os
bem. E lembre-se que você pode morrer antes, mas que deste não passa.".
Talvez isso desse mais sentido a vida.
Foi bom ter este período de férias em casa. Apesar de ter mais vontade de
me esconder de você do que ir bater papo (para não ficar analisando minha
vida pela ótica de Freud e Marx), estou lembrando mais de minha infância e
adolescência. De como não sabia o que fazer com um filho indesejado, filho
de camisinha e pílula. De como tinha que viajar por meses e me trazia
brinquedos idiotas que não brincava. Você nunca entendeu crianças,
vejo isso
agora com seus netos. Não sabe lidar com eles, ou os trata como bebês ou
como conhecedores profundos da vida humana. Porra, eles tem oito e dois
anos!
Estou escutando uma das bandas que você odeia, Pato Fu. Escutando "Canção
pra você viver mais". Acho que você não quer, né? Pelo que a mãe fala,
desde
1970 já pensa em morrer. Isso que deu ser exilado, sempre com medo da
morte
ser hoje. E agora quando ela chega, o medo parece bem menor, né? Quando já
se fez tudo. Já se viveu tudo.
Depois de ser milionário, depois de morar na "favela" do Engenho
Novo, não
sobra muito o que conhecer. O que fazer. Desde o derrame, nem pensar
direito
pensa mais. Até tenta, mas eu vejo como nem lembra onde mora às vezes. É
duro ver isso. Mas mais duro querer que sofra mais. Se ver no espelho e
chorar. Não quero isso. Quero que vá quando achar a hora. Não, não
quero que
ache que sou a favor da eutanásia. Muito menos sopu espírita. Mas sei que
sabe quando realmente é a sua hora. Já discutimos mais de um mês, somando,
sobre Maktub, que está tudo escrito. Concordo, mas temos que viver para
viver o escrito, não sentar no sofá e ficar esperando algo acontecer.
Chuvas
de sapos só acontecem em filmes.
É possível que passe deste dia. Tem cinqüenta por cento de chances. É
como
aquela famosa pergunta filosófica : "um copo está a metade cheio ou metade
vazio?". Você só está vendo o vazio, eu estou vendo ambos.
Foda imaginar que pode não ver seu "meu" neto. Nem meu futuro, que tanto
lutou para ter. Se bem que ele também foi prejudicado por você mesmo. Sei
que se me lembrar de conversas, o que sobressairão são as discussões e
discórdias, além de imposições bem "a la" Stalin. Mas é no silêncio
que vejo
a verdadeira face da gente. Tenho até hoje a carta que me escreveu quando
tive minha primeira namorada, querendo me proteger. Lembro de quando me
entregou uma puta, querendo que eu comesse e começasse esta fase sexual da
vida. Lembro de me explicar livros de filosofia, de psicologia, e filmes
complexos.
Mas esta não é uma canção para você viver mais. Nem menos. Só para
viver o
que quiser. Espero que tudo se saia bem, mas se não sair, que saia mal de
vez. Como você mesmo fala, viver em cima do muro é não viver. Pode deixar,
vou me formar. Vou fazer a vida. Vou me lembrar das merdas que fez na vida
para não repeti-las. Vou tentar contar pros netos como você realmente era,
não o velho que fala idolatrando o Bin Laden para um garoto de oito anos.
Mas aquele que escondeu a mulher e o filho quando o AI-5 baixou nesse solo
podre que vivemos. Vou tentar passar toda a visão do mundo filha da
puta que
me passou. Mas vou lembrar que tem pessoas que ajudam. Vou mostrar
Gonzaguinha pra eles, sabendo que não vão gostar como não gostava, mas que
as letras vão tocar em algum lugar inconsciente lá dentro.
E pode ser que esteja falando besteira e que tudo acabe bem, mas
temos que
aproveitar o que sentimos, não é o que me ensinou? Tá triste ,pegue um
violão. Tá feliz, escreva uma carta de amor. Está com saudades, ligue. Mas
não fique apática a sua própria vida, como você anda. Encare a vida. E
tente
faze-la como quer. Vou me lembrar do que falava enquanto não estava
reclamando de tudo e todos (ou seja, do 1% que sobrou). Porque este um por
cento valem ouro que só a vida traz, E você trouxe.
Esta não é uma canção para você viver mais. É uma canção somente para
viver. E boa sorte. Vou estar lá segurando sua mão como segurou a minha
quando estive em coma. Vou estar esperando, como me esperou. Esperando
você
viver, ou não. Mas esperando o seu bem.

:: tommy molto::

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