Friday, June 02, 2006

:: CHInewsKI Online - Edição nº 39 - Rio de Janeiro, 1 de Fevereiro de
2002::

OS HOMENS SÃO UNS CANALHAS


-Nós somos tão....idiotas....-disse ela, sentindo que poderia até chorar por jogar fora alguém como ele. Segurou seu queixo e olhou fundo nos olhos dela.
Sentiu tocando na alma. Seu cabelo pinicava em suas bochechas, mas ela gostava. Em seus olhos, havia uma sinceridade que raramente se via. Para falar a verdade, ela nunca vira algo assim.
-Mas todos temos uma chance, o negócio é pegá-la. - disse ele, ainda olhando sua alma.
Seu cotovelo jogou a bebida na cal dele, mas nenhum deles se importou, foi o beijo. Saíram correndo para o apartamento dela e fizeram amor a noite toda.
Amor. Nunca vira um homem tão carinhoso na cama. Dormiu carinhosamente em seu colo.
Ao acordar, viu que ele já havia ido. E que havia levado algumas cosias suas, caras. Correu pela casa. Bolsa, dinheiro, relógio. Uma carta em cima da mesa.
"O pagamento por uma noite inesquecível e uma história que você nunca esquecerá. Do homem que você nunca soube o nome, para a mulher que saberá o nome de quem amará."
Não chorou nem teve raiva. Fechou os olhos na mesa da cozinha e pensou na história que ele tinha montado. Um bom valor pago por um sonho tão bom. Só faltava faze-lo.




Bukowski. Little Black is Fuck. Noite vazia, provavelmente a noticia da volta do bar ainda não circulou o Rio de Janeiro. No andar de baixo, várias patricinhas vendo fotos de viagem ao som de Bob Marley. No andar de cima, três casais nitidamente se preparando para uma noite de swing dançam revezando-se na pista. No bar, os barmen conversam tranqüilamente sobre algo.
No sofá, um homem sentado sozinho, fumando seu cigarro, tomando um copo cheio de vodka. Seu visual na hora bateu Jackie. Cabelos longos e secos, uma barba bastante volumosa (como adorava roçar uma barba em suas costas) e uma roupa com a mais absoluta cara de pijama, uma camisa xadrez de flanela gasta e uma bermuda com uma mancha de café.
Sentou-se ao seu lado, mas ele olhava atentamente a fumaça de seu cigarro subindo. Malboro, este é homem mesmo, pensou. Colocou seu copo bem perto do dele. Nada. Esbarrou sua perna na dele algumas vezes. Nada. Quando ensaiava uma frase sobre a potencia do ar condicionado, ele levantara-se.
Entrara na
pista. Ao segui-lo, pegou-o falando com o dj, que imediatamente colocou sua música. Portishead. Wandering Star.
Ele parou num canto da pista, escutando a musica fascinado. Seus olhos eram lindos. Um verde claro escondido entre as mechas de cabelo castanho que escorriam pelo rosto. Ela o queria. Foi direta desta vez. Chegou do lado dele.
-Você quer dançar?
Ele fitou-a de cabo ao belo rabo e fitou seu rosto.
-Voce vai me machucar. - e pegou um cigarro para acender.
Estática, ficou ali olhando para ele, estudando-º Sujeitinho fascinante este. Deve estar fazendo jogo.


AS MULHERES ESPERAM O PRINCIPE ENCANTADO


-Nós somos tão....idiotas....-disse ela, sentindo que poderia até chorar por jogar fora alguém como ele. Segurou seu queixo e olhou fundo nos olhos dela.
Sentiu tocando na alma. Seu cabelo pinicava em suas bochechas, mas ela gostava. Em seus olhos, havia uma sinceridade que raramente se via. Para falar a verdade, ela nunca vira algo assim.
-Mas todos temos uma chance, o negócio é pegá-la. - disse ele, ainda olhando sua alma.
Seu cotovelo jogou a bebida na cal dele, mas nenhum deles se importou, foi o beijo. Saíram correndo para o apartamento dela e fizeram amor a noite toda.
Amor. Nunca vira um homem tão carinhoso na cama. Dormiu carinhosamente em seu colo.
E nunca mais dormiu em outro lugar, nem comprara mais nenhum Lui Vitton.



Mas não. Ela continuou insistindo e viu que ele realmente não estava fazendo nenhum tipo de jogo. Ele realmente não queria se machucar, tinha sentido que ela era daquelas mulheres descartaveis, ou no mínimo que descartavam os homens. Cansada, resolveu sair da pista e foi-se sentar na mesa de bar. Ele voltou após suas músicas pedidas, para seu lugar no sofá. E ficou a olhando atentamente. Ela sentia. Estava sendo comida pelos olhos. Mas ele sempre desviava o olhar ao sentir-se observado.
Ele foi para seu lado.
-Melhor você sasir de perto. Eu posso te machucar. - disse ela, acendendo seu cigarro de Bali com um rosto sério. Ele sorriu, ela retribuiu.
-Posso te provar que eu não estava brincando? - disse ele, fazendo uma concha com suas mãos e colocando a fumaça dentro.
-Você quer ficar comigo? - ela perguntou, já se excitando com a situação.
-Não. Sempre achei que isto é para quem não tem isso. - e abriu aos poucos sua mão, fazendo com que a fumaça saísse com um perfeito formato de coração, chamando a atenção até do garçon. - E, quando tem, como é o meu caso, acontece, isto. - e mostrou para ela o coração se desfazendo com o espalhar da fumaça.
-Então não entendi nada.
-O que você quer de mim? Sexo por uma noite? Um caso rápido?
-Não sei. Sexo? Não, claro que não - respondeu cinicamente, tentando tirar a imagem daquela barba roçando em suas costas enquanto a comia por detrás.
-Então queria te mostrar o que aconteceria, porque gostei de você mesmo, não sei porquê.
-Como assim? Ainda não entendi lhufas.
-Vamos conversar sobre a nossa história, o que aconteceria a partir de hoje, se nós acabássemos ficando aqui. Você quer ver? É interessante, acho que vai te interessar.
-Vamos! - disse ela, achando que poderia provar para ele que não seria nada disto.
Ele começou, imaginando que cedeu a ela um beijo na pista ainda. Ela falou que dançariam grudado a noite toda. Ele falou que preferiria ficar papeando e bebendo no sofá, se conhecendo melhor, e se devorando com olhares provocantes, seguidos de beijos e carícias.
Disse que escutaria cada palavra que ela falaria, e discutiria com ela sobre a filosofia de Sócrates até seriados de tevê. Ela disse que estaria fascinada e que ele estaria no comando. Eu sei, respondeu, e eu te levaria para o Arpoador, para bebermos e transarmos até o amanhecer ou até algum turista chegar. Ela disse que ia ser ótimo. Ele complementou que se recusaria a fazer sexo sem explorar e admirar cada poro dela. O garçon fingia que lavava alguns copos, mas não tirava os ouvidos da história.
Ela,
só de imagina-lo explorando ela toda, já ficara completamente molhada e entrara de vez na história.
Ela falou que mal conseguiria trabalhar. Ia aproveitar que o dia seguinte era sexta, o dia em que menos trabalhava, para ficar-lhe ligando. Ele respondeu que seria difícil, porque ele lecionava aulas de literatura num curso de pré-vestibular. Mas à noite, ambos se encontrariam no mesmo lugar e iam brincar de que estavam se conhecendo de novo. Ela disse que teria preparado todo seu apartamento com velas aromáticas e passariam a noite assim.
Estupefato, ele disse que acharia que estava descobrindo, finalmente, alguém como ele. Ela ficaria fascinada pelas palavras dele, e estaria apaixonada, mas se faria de difícil. Ela disse que não. O garçon, reconhecendo a cliente, deu uma certa risada, que ambos perceberam. Fingiu que era com alguém atrás deles (tudo bem que não havia ninguém). Ela consertou, achou que talvez fizesse o tipinho.
Tudo bem, vamos desconsiderar esta possibilidade, embora eu a ache provável, disse o barbado. Ela se entregaria a ele, falaria que nunca havia sentido algo assim, alguém que a escutasse tanto, e fosse uma flecha tão fulminante no coração. Ela emendou falando que o levaria para os melhores lugares, os melhores programas. Ele disse que toparia por uma semana, mas logo após teriam uma conversa sobre futilidades da vida, que tudo isso nada mais era do que uma supressão da carência que todos tem. Que queria que ela entrasse de cabeça nisso. Você faria isto?, perguntou.
Ela disse sim, começando a achar que era um destes filósofos que tentavam viver utopias dos grandes nomes. O garcon segurou o mais que pode o riso com a aceitação dela. Porra, ela sempre aparecia com uma bolsa nova cada semana, pensou. O cabeludo também fez uma cara de incrédulo, mas continuou levando o falso romance. Falou que na segunda semana ela levaria isto numa boa, e começaria a tentar se desligar do material e viver a vida e o amor. Mas a partir da terceira semana, as pessoas com quem se relacionava, pais, amigos, iam começar a critica-la, a estranha-la. Por mais que não se fale, isto vai abalando a relação. E as ligações de hora em hora agora não seriam mais tão bem vindas. Os presentes que receberia todo dia em seu trabalho começariam a virar uma tranqueira em sua mesa, o que faria você começar a achar que era um maluco, um obcecado, algo do estilo.
-Nunca! - disse ela.
-Não, isto eu sei que não. - continuou, pedindo mais uma vodka para o garçom fascinado pela história. - Eu conheço o suficiente a alma feminina. Vocês sempre falam deste romantismo, que adoram, e realmente adoram. As vezes.
Quando ele se torna constante, da no saco de voces. Você já não estaria com jeito de falar comigo ao telefone, começando a me dispensar, dizendo que esta acumulada de trabalho, ou algo assim. Não conseguiria mais se fascinar pela minha simplicidade, estaria cansada de meus poemas e de minhas admirações por você. Começaria a querer fazer brincadeiras na cama, e eu somente querendo você como você é. Sua paixão ficaria em cheque.
-Tudo bem, mas poderíamos passar por cima. - disse ela, realmente sentindo-se na história.
-Não. Eu não mudaria meu jeito. Não vejo erro nisto que faço e sinto.
Continuaria. Algum dia, você veria alguém na rua e sentiria algo diferente.
E aí, uma hora ou outra, me diria que não dava pra continuar. Existem mil e uma maneiras: estando começando a duvidar que lidaria bem com isso o resto da vida, estando cansda mesmo disso, ter se interessado por outro, dizendo que acabou. Você sabe como é.
Um silêncio.
-Cheque mate. Acabaríamos, você choraria por uma semana eu por alguns anos ou para sempre. Pois sei que o amor verdadeiro não é substituível, e, se eu te amava, não poderia deixar o que sinto para trás como você.
Silencio.
-Voce vai fundo assim nas relações?
-Vou.
-Sempre? - diz ela, acabando seu chope.
-Claro.
-Por que?
-Porque eu sou o último romântico. Literalmente.
Ela ri com um canto da boca.
-É sério. Sou o último de uma linhagem de anos. Estamos acabando. Aqui no Brasil ainda agüentamos um pouco no interior, mas não por muito tempo.
Posso
não ser o ultimo, mas pelo menos, o ultimo do Brasil. Isto e passado de pai para filho. É um tipo de educação.
-...Sério?
-Sério.
Ela ficou olhando para ele, fascinada com a história, e fascinada por sentir que provavelmente era verdade.


A REALIDADE ANDA SURREAL


-Desculpa por tentar algo com você...- disse ela, sem graça por ver que queria banalizar alguém tão significante nos dias de hoje.
-De nada. Sabe, podia ter sido você.
-Jura?
-Juro. Sempre faço isto da história quando sinto que posso ter encontrado ela. Mas não. Até hoje não. Preciso encontrar uma mulher que entenda isto.
Para podermos recuperar nossa linhagem. Ou, pelo menos, manter o romantismo fora das folhas de papel ou de cantadas baratas de namorados.
-Boa sorte, disse ela, levantando a mão para ele cumprimentar.
-Obrigado. - ele respondeu, levantando-se e beijando sua mão.
Foi embora.
-Você sabe qual o nome dele? - perguntou ela ao garçom.
-Não faço a menor idéia. Nunca o vi aqui, mas juro que já o vi por outro lugar.
-Talvez em livros...
-Talvez. Só pode.
E ela voltou para a pista, agora com mais pretendentes para sua noite, mas com uma parte urrando para que nunca mais fizesse isto.



::Paulo Marinho::

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