:: CHInewsKI Online - Edição nº 36 - Rio de Janeiro, 28 de dezembro de
2001::
Weirdos
Sábado. Cinco e meia da tarde. O gerente do MacDonalds preparava para
fechar
o
estabelecimento. Ainda haviam algumas pessoas, a maior parte saída ou indo
para
os centro culturais, com suas roupas esquisitas.
Mas havia ali cinco pessoas diferentes. Uma garota de cabelos ruivos mal
lavados, cheirando a cigarro e atrapalhando vários de comerem
tranqüilamente,
enojados pelo cheiro. Olhava somente para a bandeja e comida. Parecia ter
medo
de alguém chegar perto, e ninguém o fazia com medo dela ...Atacar, algo
assim.
Parecia uma daquelas que enlouquece do nada.
Dois amigos estavam perto dela. Bem, amigos não seria a palavra certa.
Tinham
batido um pequeno papo no caixa, algo sobre moedas e a nova nota de dois
reais.
Mas com uma pequena troca de olhares sentiram-se confortados. Parecia que
sabiam
as histórias de cada um. A solidão plena que faz com que cada oi seja uma
luz na
alma. Também tinham feito algo que era raro de se ver. Mesmo sem se
conhecerem,
sentaram-se juntos, sem uma palavra nem um com licença, numa das mesas de
dois
lugares. Um estava de frente ao outro, sem trocarem palavras nem olhares
diretos, mas pelo topo da íris viam-se se observando.
Bem mais distante de ambos, estava um homem de uns 30 anos. Roupas
rasgadas,
sujas e fétidas. Mas seu rosto não refletia isso. Era como se fosse um
novo
mendigo. Alguém que já fora algo na vida. Era difícil imaginar que não era
nada
mais do que um argentino que perdera tudo que tinha na última semana,
em um
saque acabaram com sua pequena lojinha e mataram sua mulher. Não sabia
onde
estava, sabia que tinha que comer um pouco. Seu corpo não conseguia mais
sobreviver de Velho Barreiro, embora já se acostumara as quantidades
cavalares
ingeridas. Olhava ao redor eletricamente, procurando bebida ou alguém que
pudesse dize-lo onde estava e quem era, afinal.
E perambulando pelo MacDonalds inteiro, uma jovem funcionária que
limpava a
lanchonete. Era seu primeiro dia de trabalho, logo perto do Natal.
Tinha que
ter
dinheiro. Perdera tudo que tinha, que já não era muito. Seu único real
contato
com o mundo trocou-a por uma loira que era mais segura, dizia ele e os air
bags
da vagabunda.
Loretta acendera um cigarro enquanto comia, estava sentindo-se mal.
Parecia
sentir o clima do lugar. A vibração das pessoas. Jussara chegara perto
dela
e
falara "Por favor...". Antes de continuar a falar, um mero olhar de
ódio de
Loretta fizera se calar. Vira a necessidade de ajuda claramente no reflexo
da
luz fosforescente nas lágrimas que teimavam em não cair. Fernando
olhou para
ver
o que era aquilo que quebrava o silêncio do lugar, enquanto Toninho
aproveitara
a quebra da vigilância para vê-lo direito. Sim, parecia ser um cara legal,
pensou.
Diego levantara-se para vomitar no banheiro. Apesar de implorar pela
comida,
seu
corpo não estava acostumado a comer algo diferente de um peéfe nojento de
uma
birosca qualquer. Jussara não agüentou o som de vomito que ecoava no
silencio e
ligou um radio. Era propaganda de uma grande loja de departamentos,
lembrando
para não esquecerem de comprar nada pare seus amigos e família, falando de
uma
promoção imperdível, yada,yada,yada. Por três segundos todos pensaram em
como
era uma merda estar sem ninguém para dar um presente. Foi neste
momento que
tudo
começou, mas e melhor não começar a explicar isso agora. Depois
apresentarei
Felix e Getulio. Por enquanto vamos nos ater aos cinco esquisitos. Foram
somente
três segundos. O suficiente para que olugar parece-se um pub londrino na
mente
de cada um. Alem do radio, só se escutou-se suspiros e uma tragada de
Loretta. O
som do fogo queimando o papel e o fumo parecia uma fogueira para eles. A
necessidade de escutarem algo crescia.
O comercial acabou, entrando direto uma música. Devia ser um especial de
rock de
Natal. Tocava uma música de natal de John Lennon. A sensação de
solidão, de
morte, tomou-os. Loretta fitou o canto da íris de Fernando que a
observava.
Ele
queria come-la, pensou. Todos os filhasdaputa só queriam isso. E ele
pensando em
como ela era bonita por detrás dessa fachada de solidão. Toninho via com
olhar
austero o olhar de seu companheiro de mesa, analisando-o. Ele queria
come-lo.
Parecia que ate que toparia, mesmo sem ser homo. Também estava carente. E
parecia ter no fundo aquela duvida de quem nunca experimentou um homem o
beijando e acariciando. Típico destes caras hiper sensíveis. Nada mais que
mais
uma bicha enrustida, pensou. Seus olhares se encontraram e sorriram, tendo
por
trás a tristeza de não conseguirem abrir a boca.
Fernando sentiu-se comido pelos olhos dele. Estranhou, mas do jeito que
estava,
não achou tão ruim assim. Afinal, já era uma forma de alguém pensar
nele. E
lembrou daquele pedaço dele que sempre ficou em duvida de sua
heterossexualidade. Não, pensou, isto so esta vindo porque estou
deprimido e
sozinho. Fechou a cara novamente.
O argentino saiu do banheiro quando começou a tocar uma outra musica. Um
punk
dos Ramones não muito conhecido. Mas aparentemente todos aqueles ali
conheciam a
musica. Quem diria, uma musica dos Ramones de Natal? Todos soltaram um
sorriso.
Loretta gargalhou alto e cobriu a boca ficando sem graça. Todos
olharam para
ela, e tirou a mão de sua boca, mostrando um bonito riso amarelo e com
pedaços
de carne entre os dentes. Isso só fez com que os outros rissem junto, por
vontade e por acharem engraçado.
Mesmo sem acharem que sabiam a letra, estavam todos cantando juntos. E uma
alegria tomando conta. A voz parecia um mantra silencioso que tomava e
ecoava no
silencio do lugar. E a voz bêbada e com sotaque do argentino só fazia a
situação
mais engraçada.
Merry Christmas, i don't wanna figth tonight.
O saudoso Joey Ramone entoava sua letra, e o coro da lanchonete o
acompanhava.
Agora todos se olhavam. Jussara dançava com sua vassoura, e houve um
momento
em
que todos se concentraram nela, rindo. Sem perceber, Toninho e Fernando
bateram
sem querer suas mãos. E no toque sentiram algo preenchendo o vazio de seus
peitos. Assim como todos ali sentiam.
Era um morto trazendo a vida de volta para mortos vivos. Todos eles tinham
motivos para não quererem brigar nesta noite. Sejam com suas famílias,
sejam
com
suas recordações, sejam consigo mesmo. E o som de suas vozes ecoando
faziam
sentirem-se juntos. Os olhares nunca mentem, já falou um grande psicólogo.
Acabou a música. Mesmo longe do Natal, sentiam-se com a festa feita
adiantadamente. Cada um seguiu o seu rumo, exceto Toninho e Fernando, que
foram
tomar um chope num bar perto dali. E Jussara e Loretta, que foram bater um
papo
sobre homens e suas complexidades. Pensando bem, somente Diego saiu dali
sozinho. Mas para se reunir com uma família de mendigos que ficava na
Uruguaiana, com quem começava a se sentir uma nova família.
E nenhum deles se sentiu vazio, pelo menos por uma noite. E não brigaram
nesta
noite.
::Caim::
2001::
Weirdos
Sábado. Cinco e meia da tarde. O gerente do MacDonalds preparava para
fechar
o
estabelecimento. Ainda haviam algumas pessoas, a maior parte saída ou indo
para
os centro culturais, com suas roupas esquisitas.
Mas havia ali cinco pessoas diferentes. Uma garota de cabelos ruivos mal
lavados, cheirando a cigarro e atrapalhando vários de comerem
tranqüilamente,
enojados pelo cheiro. Olhava somente para a bandeja e comida. Parecia ter
medo
de alguém chegar perto, e ninguém o fazia com medo dela ...Atacar, algo
assim.
Parecia uma daquelas que enlouquece do nada.
Dois amigos estavam perto dela. Bem, amigos não seria a palavra certa.
Tinham
batido um pequeno papo no caixa, algo sobre moedas e a nova nota de dois
reais.
Mas com uma pequena troca de olhares sentiram-se confortados. Parecia que
sabiam
as histórias de cada um. A solidão plena que faz com que cada oi seja uma
luz na
alma. Também tinham feito algo que era raro de se ver. Mesmo sem se
conhecerem,
sentaram-se juntos, sem uma palavra nem um com licença, numa das mesas de
dois
lugares. Um estava de frente ao outro, sem trocarem palavras nem olhares
diretos, mas pelo topo da íris viam-se se observando.
Bem mais distante de ambos, estava um homem de uns 30 anos. Roupas
rasgadas,
sujas e fétidas. Mas seu rosto não refletia isso. Era como se fosse um
novo
mendigo. Alguém que já fora algo na vida. Era difícil imaginar que não era
nada
mais do que um argentino que perdera tudo que tinha na última semana,
em um
saque acabaram com sua pequena lojinha e mataram sua mulher. Não sabia
onde
estava, sabia que tinha que comer um pouco. Seu corpo não conseguia mais
sobreviver de Velho Barreiro, embora já se acostumara as quantidades
cavalares
ingeridas. Olhava ao redor eletricamente, procurando bebida ou alguém que
pudesse dize-lo onde estava e quem era, afinal.
E perambulando pelo MacDonalds inteiro, uma jovem funcionária que
limpava a
lanchonete. Era seu primeiro dia de trabalho, logo perto do Natal.
Tinha que
ter
dinheiro. Perdera tudo que tinha, que já não era muito. Seu único real
contato
com o mundo trocou-a por uma loira que era mais segura, dizia ele e os air
bags
da vagabunda.
Loretta acendera um cigarro enquanto comia, estava sentindo-se mal.
Parecia
sentir o clima do lugar. A vibração das pessoas. Jussara chegara perto
dela
e
falara "Por favor...". Antes de continuar a falar, um mero olhar de
ódio de
Loretta fizera se calar. Vira a necessidade de ajuda claramente no reflexo
da
luz fosforescente nas lágrimas que teimavam em não cair. Fernando
olhou para
ver
o que era aquilo que quebrava o silêncio do lugar, enquanto Toninho
aproveitara
a quebra da vigilância para vê-lo direito. Sim, parecia ser um cara legal,
pensou.
Diego levantara-se para vomitar no banheiro. Apesar de implorar pela
comida,
seu
corpo não estava acostumado a comer algo diferente de um peéfe nojento de
uma
birosca qualquer. Jussara não agüentou o som de vomito que ecoava no
silencio e
ligou um radio. Era propaganda de uma grande loja de departamentos,
lembrando
para não esquecerem de comprar nada pare seus amigos e família, falando de
uma
promoção imperdível, yada,yada,yada. Por três segundos todos pensaram em
como
era uma merda estar sem ninguém para dar um presente. Foi neste
momento que
tudo
começou, mas e melhor não começar a explicar isso agora. Depois
apresentarei
Felix e Getulio. Por enquanto vamos nos ater aos cinco esquisitos. Foram
somente
três segundos. O suficiente para que olugar parece-se um pub londrino na
mente
de cada um. Alem do radio, só se escutou-se suspiros e uma tragada de
Loretta. O
som do fogo queimando o papel e o fumo parecia uma fogueira para eles. A
necessidade de escutarem algo crescia.
O comercial acabou, entrando direto uma música. Devia ser um especial de
rock de
Natal. Tocava uma música de natal de John Lennon. A sensação de
solidão, de
morte, tomou-os. Loretta fitou o canto da íris de Fernando que a
observava.
Ele
queria come-la, pensou. Todos os filhasdaputa só queriam isso. E ele
pensando em
como ela era bonita por detrás dessa fachada de solidão. Toninho via com
olhar
austero o olhar de seu companheiro de mesa, analisando-o. Ele queria
come-lo.
Parecia que ate que toparia, mesmo sem ser homo. Também estava carente. E
parecia ter no fundo aquela duvida de quem nunca experimentou um homem o
beijando e acariciando. Típico destes caras hiper sensíveis. Nada mais que
mais
uma bicha enrustida, pensou. Seus olhares se encontraram e sorriram, tendo
por
trás a tristeza de não conseguirem abrir a boca.
Fernando sentiu-se comido pelos olhos dele. Estranhou, mas do jeito que
estava,
não achou tão ruim assim. Afinal, já era uma forma de alguém pensar
nele. E
lembrou daquele pedaço dele que sempre ficou em duvida de sua
heterossexualidade. Não, pensou, isto so esta vindo porque estou
deprimido e
sozinho. Fechou a cara novamente.
O argentino saiu do banheiro quando começou a tocar uma outra musica. Um
punk
dos Ramones não muito conhecido. Mas aparentemente todos aqueles ali
conheciam a
musica. Quem diria, uma musica dos Ramones de Natal? Todos soltaram um
sorriso.
Loretta gargalhou alto e cobriu a boca ficando sem graça. Todos
olharam para
ela, e tirou a mão de sua boca, mostrando um bonito riso amarelo e com
pedaços
de carne entre os dentes. Isso só fez com que os outros rissem junto, por
vontade e por acharem engraçado.
Mesmo sem acharem que sabiam a letra, estavam todos cantando juntos. E uma
alegria tomando conta. A voz parecia um mantra silencioso que tomava e
ecoava no
silencio do lugar. E a voz bêbada e com sotaque do argentino só fazia a
situação
mais engraçada.
Merry Christmas, i don't wanna figth tonight.
O saudoso Joey Ramone entoava sua letra, e o coro da lanchonete o
acompanhava.
Agora todos se olhavam. Jussara dançava com sua vassoura, e houve um
momento
em
que todos se concentraram nela, rindo. Sem perceber, Toninho e Fernando
bateram
sem querer suas mãos. E no toque sentiram algo preenchendo o vazio de seus
peitos. Assim como todos ali sentiam.
Era um morto trazendo a vida de volta para mortos vivos. Todos eles tinham
motivos para não quererem brigar nesta noite. Sejam com suas famílias,
sejam
com
suas recordações, sejam consigo mesmo. E o som de suas vozes ecoando
faziam
sentirem-se juntos. Os olhares nunca mentem, já falou um grande psicólogo.
Acabou a música. Mesmo longe do Natal, sentiam-se com a festa feita
adiantadamente. Cada um seguiu o seu rumo, exceto Toninho e Fernando, que
foram
tomar um chope num bar perto dali. E Jussara e Loretta, que foram bater um
papo
sobre homens e suas complexidades. Pensando bem, somente Diego saiu dali
sozinho. Mas para se reunir com uma família de mendigos que ficava na
Uruguaiana, com quem começava a se sentir uma nova família.
E nenhum deles se sentiu vazio, pelo menos por uma noite. E não brigaram
nesta
noite.
::Caim::

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