Friday, June 02, 2006

:: CHInewsKI Online - Edição nº 18 - Rio de Janeiro, 15 de julho de
2001 ::

O Homem Cinza

Mandamento de Hoje :
"Não cobiçais a mulher do próximo"

Méier. Sábado. Três e meia da tarde. O Homem Cinza estava comendo uma pizza na Parmê, sozinho, olhando para um casal que estava se agarrando na mesa ao lado. Ele viu que ainda faltavam três meses e dois dias para que morressem num acidente na serra da Mantiqueira. Ela estaria pagando um boquete para ele quando o carro batesse de frente num ônibus. Morte instantânea.
Esperava
que pelo menos ele gozasse de emoção.
O celular tocou. Era ela. "E aí, vai fazer o trabalho hoje?".
"Talvez". "Não
demore muito, quero que aproveitemos a noite.". "Porra, mas ele não está aí do seu lado?". "Positivo. Vou sair as seis. Venha e faça sua parte.", Ele os via no futuro, sabendo que ao fazer o que lhe foi pedido não conseguiria ver mais o que via. Saiu da pizzaria e foi caminhando pelas ruas.
Um camelô vendia bonecos das garotas superpoderosas. Ele ia morrer ainda hoje, quando a polícia fosse dar uma batida por ali e ele fosse tentar revidar. Seu filho nunca o perdoaria, e morreria no tráfico. Que pena, pensou o Homem. O garoto podia ter sido um advogado, com a bolsa que ele ganharia daqui a cinco anos, e se sair muito bem de vida. Teria dois filhos que lhe dariam muita alegria. Mas seu pai ia revidar à polícia e nada disso aconteceria.
Colocou seus óculos escuros, pois estava escurecendo.Era melhor não ver o rosto das pessoas. Ver atrás dos sorrisos a morte iminente. Toda vez que abriu a boca para tentar salvar alguém, alguém que amava morria. Não queria perder mais ninguém. Tentava entender que tinha uma maldição, não um dom.
Sabia que aquela garota era a única que o salvaria. Ele não conseguia ver seu futuro. Mas conseguia ver a morte daquele puto.
Depois de uma hora de andança e dois litros de suor, chegou até a Teodoro da Silva. Subiu o morro. Era impossível não ver as mortes daqueles pobres.
Mesmo com óculos escuros. Mesmo de olhos fechados. Odiava as favelas, via as piores mortes possíveis, os piores casos existentes. Mas o que ele faria era pior. Por isso, tinha que ir a Igreja. Falar com um anjo.
Sentou-se no último banco. A Igreja não era das mais belas, mas sentia a verdadeira fé ali. Pobres têm disso. Tão desesperados por ajuda de alguma forma, que carregavam todas suas esperanças na religião. Bem que ele podia falar que Deus era um filho da puta, que seu passatempo era fazer a maior das novelas, onde todos morrerão e só o seu grande herói sobreviverá, após terem pensado que morreu.
Olhou para a Cruz.
Olhou para fora da Igreja.
Seu anjo.
"Devo fazer isto?"
"Claro. Você sabe. Só assim se livrará do mal que ele te fez. Só assim deixará de ser um caído. Você quer passar a eternidade vendo tudo cinza?"
"Não. Claro que não."
"Então vá. É a hora."
E sumiu.
Tiros na favela. Uma briga conjugal. A mulher mataria o marido com veneno de rato. Nunca saberia que ele ia conseguir largar a bebida e que poderiam ter a vida que sempre quiseram. Puta passional, pensou.
Desceu o morro e caminhou até a Boca do Mato. A Boca do Inferno.
Número 23.
Uma casa muito feia. Tocou a campainha. Nada. De novo. Estou indo, berrou o morto.
Quem é você?
Posso entrar.
Eu te conheço.
Eu sou o seu assassino.
O homem ficou congelado. Empurrou-o e entrou. Abriu um novo maço de cigarros e foi até a cozinha. Uma foto dela presa na porta com um imã em forma de coração. Tirou-a e guardou.
Eu não te conheço?
Já nos vimos várias vezes na rua. Também moro na Boca do Inferno...
Do Mato....
...mas vou sair daqui hoje.
Por que?
Porque só estou aqui para mata-lo.
Por que?
Você é muito curioso.
Porra, entr alguém em minha casa e fala que vai me matar, você não ficaria curioso?
Não, eu sei como vou morrer. Você sabia que eu vinha Não minta.
... Sabia, mas não para me matar.
Cínico.
O Homem Cinza voltou a geladeira e pegou duas cervejas. Tacou uma para ele.
Sentaram na mesa da sala, um de frente para o outro. Pegou uma caneta, fez um furo no fundo da cerveja, colocou na boca e abriu. Amassou a lata e tacou-a no chão. O Morto bebia num copo.
Você vai ficar bem com isso?
Vou. Não tenho alma. Vou pegar a sua.
Me deixa acabar a cerveja.
E esperou. Dois cigarros até o último gole. Colocou seu walkman. Carmina Burana. Levantou-se. O morto tremia de medo. Tentou se levantar para reagir, mas não houve tempo. O Homem Cinza começou a soca-lo. O rosto cheio de furos dele ficava roxo. Cinza. Mas o Homem Cinza não parava. O morto já havia desmaiado com o segundo soco na nuca, mas ele não podia parar. Podia sentir a adrenalina correndo em seu sangue, mas nada sentia. Pegou a cabeça do morto pelos cabelos e bateu-a na mesa algumas vezes. Escutou o crack final.
O sangue escorria pela mesa, fazendo os dentes quebrados navegarem em cima do pano.
Começou a tremer. Chorar. Berrar. Não conseguia controlar muito bem seu movimento, mas forçou-se chegar no banheiro. Limpou as mãos sujas. O walkman ficara no chão da sala, escutava longe a música. Molhou o rosto e olhou para o espelho sujo. Viu-se jogando da Vista Chinesa. Viu ela cortando seus pulsos ainda esta noite, com pena do que ocorrera. Viu seu anjo sorrindo.
Era preciso, Caim, era preciso. Faz parte de você. O chefe quer que faça mais a partir de agora.
Viu, pela primeira vez, seu reflexono espelho. Sem visões. Viu seus próprios olhos. Deu um berro gutural e caiu no chão babando. Tremendo. Sem ar.
Ficando mais roxo. Mais cinza. Mais morto.

:: caim ::

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