Friday, June 02, 2006

::CHInewsKI Online - Edição nº 31 - Rio de Janeiro, 6 de Novembro de
2001::

Shenala Gee

Olhava-se no espelho. Não, não podia estar enlouquecendo. Sabia que
ficar de
férias podia fazer isso, a solidão levar embora também seus últimos
neurônios. Olhou-se e analisou-se. Cabelos curtos, óculos, não tinha
barba.
Este era ele. Foi-se deitar. Rolou de um lado para o outro da cama,
com medo
do sono.
Acordou. Correu para o espelho. Cabelos longos, uma barba protuberante
e não
encontrou nenhum óculos. Até estava devidamente malhado. Sua mulher
veio da
cozinha com um copo de café na mão.
-De novo aquele sonho, não?
Olhou pela camisola o corpo dela. Lembrava de a ter conhecido no ginásio,
mas ela tinha dado o fora nele. Não tinha? Tinha deixado o cabelo crescer?
Também não lembrava. "Era um sonho.", repetia para si mesmo. Mas era tão
real....
Agarrou-a e foi para a cama. Transaram loucamente até a hora do filho
acordar. Patrícia não reclamava destes pesadelos de Sérgio, estava até
gostando. Cada vez que ele acordava, era uma maratona sexual de fazer
inveja
aos outros anos de casamento. Toda vez que acordava assim, começava uma
série de perguntas como "Você tem certeza que namoramos desde o
ginásio?" e
"Como assim, eu sou músico?". Ela mal respondia, entre as baforadas de
cigarro. Tentava a acompanhar, mas tossia ininterruptamente. Ela lembrava
que o tratamento tinha feito bem para ele, que ia começar em breve, mas
nunca começava.
Hora de trabalhar. Sérgio pegou o pequeno Alex e levou-o para o colégio. O
mesmo que ambos estudaram. Continuava a caminhada com a moto como que
guiado
por um santo. Chegava no estúdio e via rostos que só conhecia de ouvir
falar, pensava. Sentava e tratava de mexer nas gravações de bandas novas
como se fizesse a vida toda isso. Realmente fazia umas gravações amadoras,
mas nunca tinha mexido em uma mesa tão grande. E fazia isso com tanta
naturalidade que se espantava.
Após umas horas de gravação , foi pegar Alex na hora do almoço.
Levou-o para
um ótimo restaurante no Leblon. Aproveitava de sempre acordar e ver sua
carteira cheia de dinheiro. Conversava naturalmente com seu filho, assim
como fazia com seu sobrinho no que ele achava que era a realidade. Pensava
enquanto ele comia que era impossível ter sonhos tão detalhados assim. Não
podia ser um sonho. Mas um deles tinha que ser.
Voltou para casa, já que não havia nenhuma gravação à tarde, e olhou
para a
cama. Parecia desafia-la. "Vou dormir e acordar como eu mesmo", pensou. E
fez. Acordou na sua cama, com cheiro de cigarro, entre livros e revistas.
Acendeu correndo um cigarro e sorriu ao sentir o doce gosto da nicotina.
Ligou a tevê e ficou vendo seriados antigos. Tentava se concentrar,
desligar
a cabeça de seu problema, mas não conseguia. O principal problema de
não ter
o que fazer é que você sempre se foca nos problemas que não pode resolver.
Tentou ligar para alguns antigos amigos, mas todos estavam no trabalho.
Pegou uma garrafa de vinho e foi bebendo para esquecer de seus problemas e
relaxar. Ficou vendo a Gata e o Rato e lembrando de sua infância. Como era
bom não ter problemas. Só se importar com colégio e televisão. Como
invejava
os mais novos...
-Pai. PAI! – berrava Alex, balançando Sérgio ao seu lado, no sofá da sala.
Sérgio acordou com gosto de Fanta Uva na boca e sentindo a barba
grudenta do
refrigerante.
-O jogo do Flamengo vai começar daqui a pouco! Você não quer ver comigo?
Sorriu para o garoto, que estava assustado com o rosto em pânico do pai.
Falou que ia tomar um banho antes. Ligou para a mulher. Deixou mensagem no
celular. Retornou em uns dez minutos, enquanto aparava a barba. Ele falou
que estava enlouquecendo. Já fazia duas semanas que acordava assim,
sentindo
que tinha outra vida. Ela respondeu que sempre ele fora sonhador. Que
tinha
que aprender a relaxar na vida. E que ela havia comprado uma lingerie nova
para acalma-lo.
Alguém chegara na emergência, ela exclamou, desligando. Olhou fixamente o
espelho, escutando na sala o início do jogo. Molhou o rosto, apertando bem
as pestanas com o olho fechado. "Isso é uma alucinação. Isso é
loucura.". E
sentiu o cheiro de cigarro ao seu lado. "Filho?", falou, abrindo os
olhos. E
viu que estava com um cigarro aceso na pia, sua pia normal. Ou não era sua
pia normal? Passou a mão na cara e não sentiu a barba.
Correu pela casa. Lembrou de filmes e livros assim. Metamorfose de Kafka.
Pensou em O Show de Truman. Em a Estrada Perdida de David Lynch. Não, não
havia nada nem ninguém na casa. Só ele, a televisão, uma garrafa de vinho
semi vazia e a solidão. Será que estava sonhando com o que queria ter
sido?
Aí tudo faria sentido. Sim, faria sentido. Devia ser isso. Sua solidão
tentando preencher os vazios de sua vida.
Pegou a garrafa e foi para o quarto. Viu o álbum de formatura do colégio.
Não fazia tanto tempo assim, ele achava, mas neste tempo já havia se
formado. Tentara manter um certo contato com as pessoas, mas sumia. Sabia
que tinha problemas de isolamento, depressão, etc. Mesmo assim, se
formou um
bom engenheiro civil. Até participara de seu antigo sonho de ter um
estúdio
de música, de certa forma, estudando a acústica e montando a planta ideal.
Viu as fotos. Patrícia estava lá, mas sua timidez não o deixou ser feliz.
Depois do fora que levara, nunca mais se aproximara. Nem sabia como ela
estava, mas não a esquecia. Lembrava que todas suas namoradas tinham
um quê
da Patrícia. Fosse o cabelo liso e escuro, fosse o jeito elétrico dela,
fosse a banda preferida até.
-Pai, você ainda não acabou? – berrou Alex da sala.- A gente ta quase
marcando um gol. Vem ver.
Tirou seu foco do álbum e viu que estava na cama de casal de....dele
mesmo.
Ou não? Sentia-se louco. Insano.
-Pai, você ta legal?- chamava o garoto da sala.
Ele correu para a sala, mas ao atravessar a porta do quarto, estava em sua
casa solitária. Será que já estava morto.
Morto... Hmm...Não tinha porque viver. Pra que viver assim? Sua solidão
chegara no ponto que enlouquecera. Era isso. Não havia por que viver,
então.
Alex, não era verdadeiro...nunca teria um filho...nunca teria uma
mulher...Patrícia...
Correu para o banheiro novamente. Olhou-se no espelho. Sua barba
estava por
fazer já há algum tempo. Lembrou da solidão. Lembrou que estava louco.
Decidiu se matar.
Deu uma porrada com a testa no espelho da pia. Olhou-se e viu, etre os
fragmentos, seus longos cabelos Sangrando. "PaiÊ!!!!", berrava Alex,
da sua
sala....da sua sala normal. Deu mais um golpe no espelho, sentindo um caco
de vidro entrar em sua pele. E se desligou de tudo.
-Pai...você ta com sono?- disse a voz de Alex, puxando sua calça.
Ele desencostou a cabeça do espelho e viu que so estava com a marca escura
que sua pele branca deixava. E realmente se desligou. Foi ver a
goleada que
o time dele e seu filho deu no Boca Júniors. Foram para a rua ver a
comemoração do título da Mercosul. Seu filho estava com um sorriso tão
grande que tinha se conter de chorar. Para ele, aquele era o primeiro
sorriso que vira dele.
Voltaram e esperaram Patrícia. Alex fora dormir na casa de um amigo para
comemorarem o título jogando botão. Coisas de criança. A mulher tirou sua
roupa branca e mostrou que já estava com a lingerie por debaixo.
Sérgio fora
correndo para seus braços e fizeram amor por todos os cômodos da casa.
Por fim, ficaram na banheira da suíte somente abraçados. Sérgio estava
realmente sentindo seu coração livre para viver. Aquilo não era um sonho.
Era sua vida. E não ia deixar nenhum sonho atrapalhar isso. Ela pedira que
mesmo que deixasse destas loucuras, que não perdessem o fogo que estavam
vivendo nestes dias.
Foram para a cama e após algumas horas de beijos e conversas, dormiram.
Sérgio dormiu tranqüilamente e não sonhou durante alguns dias. Estava
começando a se adequar a vida de músico e produtor musical.
Quatro dias depois, ao dormir, sentiu que não tinha mais os cabelos
compridos, nem a barba. Seus olhos abriam e ele sentia-se como o velho
Sérgio, num lugar com cheiro de hospital.
Acordou com uma sensação estranha na cabeça. Uma enfermeira viera correndo
segurar sua mão. Falou que um vizinho escutara o barulho dele berrando e
quebrando o espelho e chamara socorro. Falou para ficar quieto que tinham
feito uma operação em sua cabeça, ela ia chamara a médica.
Com a visão turva, viu a doutora chegando perto.
-Ora, ora. Sérgio, eu sabia que você tinha algum problema, mas nunca
imaginei que fosse tanto. Acabamos de tirar um tumor que você tinha. Muita
sorte você ter tido este acidente, se é que foi um acidente.
-Patrícia?- ele perguntava, limpando os olhos.
-Então você lembra de mim, né? Que bom, também não me esqueci de você.
Principalmente agora que te operei. Você devia ter um plano de saúde para
evitar que recém formados participassem de sua operação.- disse sorrindo e
chegando perto de seu rosto.
-Você...lembra de mim?-ele perguntou, ainda grogue.
-Claro que lembro. Você esqueceu do que tínhamos no colégio. Você nem
percebia o quanto eu era...apaixonada por você, né? Devia ser este
tumor que
você tinha que atrapalhava , hehe.
-Você...está aqui mesmo?
-Claro, só vi sua operação, mas me deixaram responsável por você agora.
Falei que era ....meio pessoal o caso. Ah, e te aconselho a deixar o
cabelo
crescer por um tempo. Não sei se estas cicatrizes vão sair cedo. O coro
cabeludo vai se regenerar, mas até lá acho que ia ficar mais bonito com o
cabelo cobrindo, sabe? Que nem você era, com aquele cabelão.
Ficaram batendo um bom papo ainda naquela manhã. E continuaram depois. E
depois. E depois.



::Caim::

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