Friday, June 02, 2006

:: CHInewsKI Online - Edição nº 24 - Rio de Janeiro, 5 de setembro de
2001::

Hela, a deusa da Morte


Fiquei ajoelhado ao lado de sua cova por uns instantes, apoiando-me em
minha
espada. Na lápide improvisada de madeira, estava escrito "Mais uma morta,
mas não por isso somente mais uma. Descanse em paz, Jessica". Ele
estava ao
seu lado enquanto ela morria, sem poder fazer nada para ajudá-la, somente
evitar que fosse o próximo ou que a ferissem mais e fizesse a morte
vir mais
rápido. Talvez isto tivesse sido melhor. Dizem que a morte rápida traz
menos
dor.
Lembro quando me matei. Não adiantou muito. Suicidei-me por querer a
imortalidade no papel de mártir, mas de nada adiantou. Cheguei no
Inferno e
encontrei a deusa Hela. Ela e seu cão (ou lobo, lá nada era realmente
o que
conhecemos na Terra) atormentavam a mim e os outros mortos. Esbarrei com
muitos outros amigos que foram mortos em combate ou que tentaram fazer o
mesmo que eu, acabar com seu sofrimento.
Mas de nada adiantou. Lá, você não tinha escapatória também. A guerra
era em
todo o canto. No chão, almas perdidas contorciam-se implorando por um
golpe
de misericórdia. Tentei dá-lo em alguns, até em mim mesmo, mas vi de que
nada adiantava. Ali era o eterno. O sofrimento infinito. Onde quer que
esteja, o sofrimento de Hela estava presente. Seus soldados nos
atravessando
com espadas de fogo ou mesmo com a pura solidão, quando caímos na
desesperança e acabamos virando parias. Sem força ou virtude. Resolvi,
então, encarar a deusa da morte. Ela observava-me , com sua máscara
preta e
seu vestido verde, sem entender o que estava fazendo. Estava me
passando por
seu soldado . Afinal, era o que ela queria. Mas ela via em mim muita
esperança. Este foi seu erro. Ela me mandou de volta a terra dos vivos
achando que eu tinha esperança de recolher mais mortos para seus domínios.
Mas minha sede era de justiça. Queria ser um soldado para realmente acabar
com o sofrimento daqueles pobres espíritos solitários e desolados.
Achei que
por ser um deles, poderia ajudá-los. Mas não. Ninguém tinha este poder no
Inferno. Acho, pessoalmente, que nem Hela. Ali era o lugar em que
somente os
solitários iam, para acabar sozinhos e verem o que fizeram. Para verem
o mal
que fizeram. Para verem que só tem a si mesmos e que o bem seria o melhor
caminho, mas poucos o seguem. O caminho mais rápido é o da matança. Você
acaba tendo tudo da pessoa : dinheiro, armas, casa, mas tem o que menos
importava, a compaixão de outro.
- Você vai voltar para a Terra, meu bom soldado. - disse ela, segurando a
espada que conseguira com um de seus lacaios.
- Por que? - perguntei, sem entender o sentido de seu desejo
- Você não é um mártir. Você tem o que fazer lá ainda. Seu papel não
acabou.
Seus generais precisam de você para fazerem mais conquistas e levar mais
destruição aos inimigos. Será meu representante neste pequena guerra, que
espero que faça virar uma grande batalha. Traga-me mais almas
corajosas como
você. Eles lutarão ao seu lado em breve. Quando você criar a grande
batalha.
Pensei em falar a verdade do que sentia, mas calei-me. Era melhor
guardar a
verdade do que encarar a Morte. Fizera uma vez e, ao invés de libertar as
almas penadas, isto fez-me voltar para o campo fétido de batalha. O
que ela
faria agora se falasse que estava errada quanto a mim?
Fui enviado de volta para o campo de batalha, no mesmo dia em que morri.
Para mim, haviam-se passado meses. Minha aparência era muita marcada. Meus
companheiros, os que sobreviveram, achavam que era pela suposta morte que
tive, mas eu sabia. Eu estava morto por dentro, somente aquela guerra
ia me
salvar. Só se eu salvasse mais alguém. Hela detinha minha alma, mas meu
corpo ainda precisva lutar pelos meus generais, levar mais conquistas e
destruição.
Nossos generais não chegavam a lugar nenhum. Sempre exaltavam o feito de
seus tenentes ignóbeis, que nada mais faziam que conseguir mais terras
estéreis. Os nossos estrategistas mostravam que não podíamos mais
continuar
a conquistar terras inférteis como estávamos. O exército iria morrer de
fome. A estrategista que falou isto foi encontrada morta no dia
seguinte.Aparente suicídio. O sobrevivente agora também exaltava as
vitórias, com um ar irônico. Que pena somente eu e o relações-públicas
entendermos isto.
Já fomos um grande exército. Na guerra pela dominação de novos
territórios,
a maior parte de nossas forças conseguiu sair ileso. Mas a fome levou
vários
a morrerem. Lembro-me de alguns que foram dispensados por incompetência,
enquanto eu sabia exatamente que era por racionamento de alimentos e água.
Alguns até foram embora por vontade própria. Imaginavam que um dia iríamos
ser encontrados no deserto que seriam nossos domínios somente em ossos.
Mortos pela fome e pela estupidez da ignorância. Nossos relações-públicas
conseguiram grandes tratados com terras férteis, porém fora decidido
que não
eram áreas estratégicas para a dominação do continente. A estrategista
morta
não concordava com isto. Os relações-públicas desaparecidos também.
Agora, quando tínhamos somente mantimentos para, talvez, dois meses de
sobrevivência, éramos muito poucos. Pouco mais de uma dezena. Incluindo os
generais e tenentes, talvez um pouco mais de vinte. Sobrara-nos
somente dois
bispos. É assim que chamamos os responsáveis pelas anotações de nossas
aventuras e feitos. Jéssica era uma, e ainda uma brava guerreira. Vi
muitas
vezes ela sair de sua barraca ou de sua milícia para socorrer um amigo
ferido ou pegando a espada de um caído e indo salvar-nos de uma enrascada.
Lembro quando nosso bardo, Mark, morreu na primeira grande batalha. Seu
sofrimento foi grande, e no fim, ela foi uma das mais violentas guerreiras
naquele dia. Todos foram. Ele era o que nos dava mais esperança e alegria.
Vi sua morte como um presságio de nossa derrota na guerra. Sem esperança,
não há vitória.
Nosso rei e suas torres não estiveram presentes em seu funeral. Ele era
apenas um poeta, disseram. Mas todos nós estivemos lá. Os outros choravam
por sua morte. Eu não consegui. Não sei ao certo por que. Talvez por
que não
fosse minha função. Eu era um guerreiro, não um poeta. Talvez já não
tivesse
minha alma.
Nossos generais estão retirados em um acampamento bem distante, longe de
todas as batalhas. Têm medo de atacar com uma frente tão minúscula.
Somente
um, o general Horace, que por acaso era o mais covarde de todos até a
pouco,
agora ia às vezes para a linha de batalha conosco, curtir o momento da
guerra. Por pior que seja, os momentos em que o sangue corre rápido em
nossas veias nos dava prazer. Eu sabia disso. Hela sabia disso. Por
isso ela
me achou tão especial. Por isso nossos generais me acham tão especial. Se
não fosse os esquemas montados por mim e nosso estrategista, provavelmente
seríamos mortos em um por de Sol. Conseguíamos amedrontar e exterminar
inimigos com sistemas de alta engenhosidade, como as catapultas acionadas
por pesos em roldanas, que fazia aparentar que tínhamos vários guerreiros
escondidos e espalhados pela área de combate. Nunca pude falar isto com
eles, mas também utilizei alguns dons que recebi de Hela. Maldição, do
Inferno mesmo! Não era pela falta de comida que alguns lobos e gnus
apareciam e nos ajudavam. Eu os chamava.
Caminhamos para uma de nossas últimas batalhas, de um pequeno vilarejo ao
Norte, a área mais fértil do Condado. Soubemos que uma área fértil do Sul
que havíamos conquistado havia se rebelado e começado a quere vender
comida
para nós. Não podíamos fazer nada. Eles sabiam quem éramos, quantos
éramos.
Iriam nos vencer rapidamente.
Uma de nossos bispos me cutucou no ombro. Nem havia sentido, mas a
armadura
enferrujada fez deveras barulho. Era a mais falastrona, sempre indagando
perguntas de como foi o golpe, o que sentimos, o que iríamos fazer
quando a
guerra acabasse. Andava em altos e baixos, mas em seus altos ela
aprendera a
lidar bem com um arco. Nunca imaginara que iria ter um bispo ao meu
lado em
uma peleja! Logo estes, os mais intelectuais, os mais fracos. Porém,
ela se
esforçava. Corria sempre conosco nas manhãs, e ficava nos vendo treinar e
anotando. Percebemos depois, que, ao anoitecer, ela treinava escondido
nossos golpes.
Ela avisou-me que era hora de seguir nosso caminho para , talvez, nossa
última batalha. Levantei-me e a acompanhei até grupo, onde todos já estão
prontos para a caminhada ao campo de batalha. Alguns escravos
empurravam as
catapultas e levavam as charretes. Nossos generais, que lá estiveram
presentes, seguiram de volta para sua base, após terem participado da
cerimônia fúnebre e terem se apropriado de todos os escritos de
Jéssica. Nós
subimos nos cavalos e partimos.
Eu era o último cavalo que sobrara. Na verdade era um peão. Mas com nossa
quantidade, acabava agindo em todas as áreas. Com a experiência que
aprendi
com Hela, ajudava as estratégias de guerra e até com quem devíamos nos
aliar. Recebíamos várias confirmações de povos pequenos, que
acreditavam em
nós, porém nossos generais não aceitavam. Era o mais importante no momento
estas pequenas alianças, mas só sabem que está no campo de batalha. Quem
está protegido e embalado por suas orgias e seus vinhos numa festa de Baco
não tem o que se preocupar. Nosso último tenente havia se refugiado com
eles, com a rainha, que comandava Jéssica e o outro bispo. Agora era
somente
eu, Ronald , nosso estrategista, Rod, o relações-públicas, Natasha, o
bispo,
Fabian, nosso fiel e eficiente escudeiro, Maurice e Theodore , dois jovens
franceses que se aliaram a nós. Um tinha muita vontade de aprender e ser
alguém no fim desta guerra, mas o outro... acho que ele queria somente ser
alguém no fim sem nada ter feito.
Havíamos formado uma tríade : eu, o corpo, Rod, a mente, e Ronald, o
coração. Mesmo assim não era o suficiente. Completávamo-nos em um forte
guerreiro, mas não seria este que venceria. Um homem não ganha uma guerra.
Com a morte de Jéssica, sentimos uma ligação forte com o sofrimento de
Natasha, ainda por cima por ela ter se aproximado nos treinos de combate,
que agora todos participavam. A tríade agora tinha algo que valia mais do
que o que tínhamos: uma alma, que conseguia dar mais ternura e lirismo ao
grupo.
Chegamos após uma viagem de três semanas ao local. Passamos por várias
vilas
e fazendas pelo caminho. O povo parecia muito contente com sua vida.
Não se
amedrontaram com nossa presença, até ao contrário, acenavam para nosso
grupo
e ofereciam hospedagem. Não gostei da idéia de ter que dominar um povo tão
hospitaleiro e bem aventurado.
O castelo e sua fortaleza estavam diante de nós. Podíamos vê-lo a olho nu.
Estava num conjunto de vales. Imaginei que a batalha aconteceria ali. A
muralha era pequena, assim como o castelo. Não era muito bonito, parecia
ainda recém construído.Montamos acampamento numa área não muito, na margem
de um lago onde se escorria uma cachoeira. Todos se banharam com alegria.
Fazia dez dias que não tomávamos um banho. O dia estava lindo. Era ótimo
nadar junto a peixes. Principalmente quando eles seriam sua refeição. Nuca
imaginaria que aquele seria meu último dia na Terra. Meu último por do
Sol.
E como foi lindo. Passamos a tarde preparando as catapultas, enquanto os
franceses haviam se distanciado atrás de uma caça, supúnhamos. Rod ficara
treinando com Natasha a mira com o arco. Ambos não eram muito bons, mas a
força de vontade fazia com que se superassem a cada golpe. Sabia que na
batalha seriam grandes assassinos. Eles tinham esperança. Não só de
sobreviverem, mas de vencer por um ideal.
A noite caiu. Eu Ronald e Fabian já havíamos preparado tudo. As catapultas
estavam bem posicionadas e camufladas por folhas e mato. Maurice e
Theodore
voltaram com um veado e três mochilas. Haviam encontrado dois
fazendeiros e
uma criança no caminho de volta. Eles pediram para darem o que tinham por
que passavam fome. Os fazendeiros não obedeceram. Que jazam em paz. Mesmo
dizendo que só os afugentaram, eu senti o cheiro de sangue em suas
espadas.
Era humano.
Fomos abençoados com uma grande refeição e com boas garrafas de vinho.
Continuamos em volta da lareira após, planejando acabar com o vinho.
Fabian
foi para as catapultas, verificar o sistema e se o ângulo estava bom para
acertarmos os alvos. Havia dado a liberdade dos escravos ficarem junto a
nós.
- O que planeja fazer depois disso tudo, Rod? -perguntei.
- Creio que após tudo, vão me dar um bom lugar no império. Consegui
mais do
que todos os outros. E ainda me arrisquei no campo de batalha.
- De nada adianta. - contrapôs Ronald - Só terão os frutos àqueles nobres
escondidos debaixo de sua estirpe rica.
- Fiquem tranqüilos, rapazes. - disse Natasha, abrindo um belo sorriso -
Haverá lugar para todos. Conseguimos conquistar um território que só povos
mais antigos conseguiram. E eu vou defender-lhes com o poder das palavras,
de meus escritos. Todos que escutarem e lerem a verdade que foi
relatada por
mim e Jéssica, saberão o que passaram e lhes acolherão como heróis.
- O que você acha que fizeram com os escritos de Jessica? - disse, me
levantando e derramando vinho por toda a roupa - Já devem estar queimados
neste momento. Com você será o mesmo. E de que adianta ter tantas
terras, se
não há quem habitar?
- Nosso povo virá para cá! E poderemos prosperar! - respondeu - Aqui eles
poderão ser mais do que podem em nossa pequena terra.
- Precisamos de cientistas, talvez alquimistas, para conseguirem tornar
estas terras inférteis no mínimo habitáveis. Precisamos que povos mais
prósperos nos ajudem. Somos em maior parte guerreiros. Falta-nos
inteligência e sabedoria.
- Não acredito nisso. - disse Ronald - Nosso povo viria para cá sobreviver
de quê? Não há como plantar nada por aqui...bem, com exceção desta área e
poucas outras. E quem virá para ter que lutar pela sobrevivência? Aceite,
estamos lutando por um sonho que já acabou a muito tempo .
- Se é assim, por que vocês dois continuam aqui? - retrucou Rod, triste em
ver que seus dois amigos pareciam não querer mais lutar pela causa.
- Se eu não tiver isso, quer dizer que nunca tive nada. Sempre me preparei
para uma guerra destas. Não luto pelas conseqüências, mas pela guerra
em si.
Estou aqui porque a guerra é o meu motivo de ser quem sou.
- Nossos generais vão mandar mais guerreiros para cá. Ouvi falar que estão
recrutando em nossa terra natal. - disse Natasha, esperançosa. -
Voltaremos
a ter um exército.
- Eu estou aqui porque não sei morrer. - respondi de costas.
Todos fizeram um silêncio e logo após caíram em prantos de risadas.
Sai com
uma das garrafas de vinho e fiquei sentado às margens do lago, olhando meu
reflexo. Quem sou eu? Como me permiti chegar neste ponto?
Barulhos na água. Olhei. Era Hela, andando sobre a água, vindo em minha
direção. Olhei para trás e vi que ninguém olhava, nem percebia nada
estranho. Voltei-me a ela e vi que já estava em minha frente.
Impressionei-me ao vê-la nua. Como a deusa da morte pode ser tão atraente?
Tão bonita? Deve ser por isso que sou um guerreiro nato. Sinto uma enorme
atração pela Morte, e ao mesmo tempo a repudio.
- Tolo soldado - disse ela, levantando meu queixo e quase me beijando
- Não
entende mesmo? Não entenda. Você é somente um cavalo de guerra. Nada mais
nada menos. Esquece-se de outros, como Genghis Khan? Ele foi um de meus
melhores soldados. Átila também. Você é meu atual preferido. É tão
romântica
sua questão pessoal. Você não tem sentido. Você só deve fazer o que
você só
sabe fazer: matar. É a única coisa que sabe fazer, e faz muito bem. És um
guerreiro nato. Sem família, sem esperança, sem medos.
- Mas eles são meus ami...-respondi, tentando levantar meu braço, que
parecia imobilizado.
- Amigos? Amigos? Você sabe o que é isso? É uma guerra. Em situações
intensas, as relações sempre parecem muito mais intensas. Todos aqui só
querem saber da guerra. Da vitória. De sucesso, ouro e comida. Você
não pode
ter amigos. Um dia, você pode estar numa linha de batalha, fazendo o que
sabe, e matando um deles sem perdão por não conseguir ver seu rosto com o
elmo. Guerreiros não têm amigos. Eles guerreiam com companheiros de
batalha.
- Então é isso? Devo guerrear somente pela vitória, pois é isso que sei
fazer?
- Exato. E traga mais alguns para mim. Sem você, o Inferno está ficando
muito solitário. - disse, beijando-me e voltando-se para á água,
gargalhando.
- Mas por que eu..? Hela? HELA!!!!
- Saiba que são poucos que me vêem como você viu. Um presente de
comemoração
da vitória de amanhã.
- Mas será sempre assim? Serei um escravo da guerra?
- Desista! Você não tem esperanças!- e mergulhou no lago sem nunca mais
subir.
Virei-me para o acampamento. Já estavam todos dormindo. Quanto tempo se
passara? Horas? Minutos? Resolvi ficar ali de guarda, pensando. Não ia
morrer por não dormir. E foi assim que tudo me veio a mente. Como se
finalmente tivesse entendido por que meus companheiros morreram e eu não.
Senti minha alma de volta por uma fração de segundo.
Corri em direção às barracas. Acordei Ronald e Fabian e contei-lhes um
plano. Quando amanheceu, ninguém nos encontrou até o fim da manhã, quando
explicamos tudo e o fim começou.
Nossas cinco catapultas estavam bem posicionadas em direção ao castelo. Um
guarda parecia ter visto nosso movimento e começou a se aproximar. Natasha
começou a achar que tudo estava errada, que devia estar com sua pena e
seus
pergaminhos na mão anotando, calmamente e protegida. Rod sentiu falta de
suas escoltas para os reinos que ia fazer acordos. Ronald viu que ia
ter que
enfrentar de novo o campo de batalha, mesmo sendo apenas um burocrata que
planejava a morte de seus inimigos e estimava perdas de seu grupo. Mas
não a
própria.
Corri em direção ao soldado que se aproximava já com a espada em punhos. O
outro, que ficara na guarda, começou a berrar e bater no portão pedindo
ajuda. O meu oponente ficou congelado, ao ver-me jogando o elmo longe
e indo
ao ataque com um sorriso sanguinário na cara. Era isso que eu sabia fazer.
Só isso. Então era o que eu ia fazer. Comecei a berrar tão alto que ele
abaixou seu elmo. Provavelmente para não vê-lo chorar. Ele defendeu meu
primeiro golpe, mas usei todo meu peso na espada, fazendo a dele cair. Ao
invés de matá-lo, enfiei minha espada em seu ombro. Deve ter sobrevivido.
Não o encontrei depois.
Alguns arqueiros apareceram em cima da muralha e nas janelas das duas
torres. Abri meus braços e gritei para eles: "Vamos! Me ataquem!". Em
seguida, comecei a fazer um ganido com a voz. Foi tão agudo que jurei que
escutei Rod gemendo lá atrás, juntos das catapultas. Ronald sabia. Era a
hora.
Maurice acendeu uma tocha e foi colocando fogo nas pedras revestidas de
folhas. Fabian acionou o sistema de roldanas. Uma pedra. Para dentro da
fortaleza do castelo. Alguns berros. Hela, onde você está? Segunda pedra.
Esta foi certeira, nos arqueiros das muralhas. Juro que senti o odor da
morte se espalhando no ar. O arqueiro da torre esquerda ficou sem ação, ao
ver que estava ali, imóvel, berrando feito louco. Seu último
pensamento deve
ter sido se era bruxaria. Abutres vieram sobrevoando o alto da cachoeira e
entraram nas janelas as torres. Queria não ter sentido felicidade
nisso, mas
senti. Afinal, o que interessa é a vitória, não interessa como.
Peguei o elmo de volta e voltei correndo para trás quando percebi que
estava
com uma flecha encravada em minha coxa. Quebrei-a e continuei correndo.
Tinha aprendido a não ligar para a dor. Nada ia me fazer mesmo. Theo e
Maurice estavam saltitantes, enquanto os outros estavam me olhando
espantados.
- Está doendo? - perguntou Natasha, abaixando-se para ver como estava.
- Você tem certeza que isso vai dar certo? -perguntou Ronald, inseguro -
Acho suicídio o que você quer fazer.
- Deixa disso. Prove que é um bom estrategista. Vá com Maurice. Rod, fique
recuado. Quando o ataque aéreo acabar, entre, Natasha. Fabian, prepare
mais
uma rodada de pedras. Ajudem-no.
Subi no cavalo e fui mais na frente que Theodore, tentando evitar que se
machucasse. Ele era muito novo e inexperiente para um ataque kamikase
daqueles. As portas se abriram. Uns trinta soldados. Esperava mais. Parti
com o cavalo correndo como louco para cima do grupo, que, para variar,
ficou
sem saber que ação fazer. Atropelei alguns, que acabaram atingindo meu
cavalo. Caiu um pouco após o grupo da frente, dando-me tempo de me
levantar
e empunhar uma espada. Vi que haviam quatro outros soldados lá dentro,
protegendo a entrada para o castelo. Ia partir para cima deles quando
vi que
Theo, ao contrário do que Ronald devia ter orientado, fez o mesmo que eu.
Seu cavalo conseguiu entrar. Foi para cima dos soldados na entrada do
castelo. Pensei em deixá-lo cuidar deles.
Não! Era isso que Hela queria. Andei até onde estava e cuidei de dois
soldados que vinham por trás. Ele havia cuidado dos outros dois. O garoto
era suicida, fazia por diversão mesmo. Sabia que ele não passaria daquele
dia.
Neste tempo, os soldados da frente haviam se dividido: a maior parte veio
para cima dos suicidas e alguns foram ver o suposto exército que
estava com
as catapultas. Ronald e Maurice já haviam escalado com uma corda a muralha
por trás e estavam pegando os arcos para atingir os soldados de cima. Não
eram bons nisso. Para falar a verdade, Ronald nunca tinha feito isto. Mas
com a esperança nasce a força. E ela faz toda a diferença.
Não pude fazer muito para evitar que Theodore fosse morto. Tentei me
posicionar em sua frente, mas ele queria lutar. Contra vinte soldados,
ficou
deveras complicado. Um deles acertou seu pescoço em cheio. Não há nada
mais
aterrorizante do que ver uma cabeça pendurada no pescoço. Ainda por cima
quando era de um companheiro que você queria proteger por tudo deste
mundo.
Ou desta guerra.
Ronald e Maurice já estavam posicionados na muralha. Enquanto o
estrategista
mirava calmamente antes de flechar, Maurice parecia que falava algo
antes de
cada uma. Uma oração, talvez. Isto me animou. Ele ia sobreviver. Um deles,
provavelmente o líder, berrou para correrem para a escada que levava
ao topo
da muralha. Tive que me esganiçar de novo. Os abutres saíram das torres e
desceram.
Corri para fora e comecei a recitar versos que aprendi no Inferno.
Shynalagee, Shynalagee, berrava feito louco. Meus queridos lobos iriam
aparecer logo. Mas ao invés deles, vi BalRog, o animal de Hela,
aparecendo e
colocando quatro cavaleiros de uma vez em sua boca. Para qualquer outra
pessoa, era como se eles tivessem desaparecido repentinamente. Todos
correram apavorados, berrando "Bruxo! Bruxo!", exceto um, que chegou
até as
barracas e assustou-se ao ver somente Rod, tremendo com uma espada na mão.
Sem armadura, sem nada.
Tentei correr até lá, mas BalRog ficou no meio do caminho. Ele tentava me
bloquear, como se dizendo que eu devia ir para o castelo, é lá que
estava a
minha guerra. Quase desisti de ir, mas lembrei que era isso que Hela
queria.
Rod largou a espada e se ajoelhou, sentindo que algo estava errado. O
cavaleiro tirou o elmo e sorriu para Rod.
- Vá embora.- disse, sorrindo para Rod - Vou te dar uma chance.
- Não. Vou ficar. Quero morrer pelo que acredito.
De dentro de uma barraca, uma flecha voou até o crânio do soldado. Rod
nunca
esqueceu dos olhos vazios daquele homem. Ele era mais novo, porém parecia
que tinha vivido muito mais. Marcas da guerra. Natasha saiu de dentro da
barraca com um arco na mão e flechas nas costas. Fabian atrás dela,
correndo
para as catapultas.
- Posso não ser boa na guerra, mas talvez seja boa na arte da guerra. -
falou, sorrindo, como se nada tivesse acontecido. Seu espírito guerreiro
havia acordado. Rod abraçou suas pernas, com a cabeça no ventre,
pensando em
até que ponto esta causa era justa. Ela colocou a mão em sua cabeça e
disse:
"Falta pouco. Muito pouco.".
Sorri ao ver a cena e voltei-me para o castelo. Assobiei chamando-os e
fomos
caminhando até lá. Víamos que Ronald havia morrido, mas Maurice ainda
estava
lá, apoiando sua cabeça na muralha. Falei para Rod e Natasha subirem e
verem
o que acontecera.
Entrei no castelo. Após alguns corredores desertos, encontrei a sala
principal. Não havia ainda nenhum brasão, espadas, nada nas paredes.
Somente
pedras. Atrás da mesa de reuniões e banquetes, dois soldados protegiam um
senhor apavorado. Puxei a outra espada. Os dois tentaram me atacar ao
mesmo
tempo, mas o senhor segurava-se a um deles. O primeiro, mesmo sendo forte,
demorou dois golpes. Defendi seu ataque com uma espada e encravei a
outra em
seu rim direito. Senti o cheiro de urina saindo de seu corpo e escorrendo
pelo chão enquanto caia. O segundo se ajoelhou perante mim. Joguei as
espadas no chão e pedi a dele. Tremendo, entregou-me. Fiz como ouvira
falar
que os reis faziam, e transformei-lhe em um cavaleiro. Um homem digno
destes
merece viver.
Encarei o senhor do castelo. Ele era um dos relações públicas que nossos
generais haviam dispensado. Estava apavorado com o estado de meu corpo.
Percebi que meu ombro estava aberto, com ossos quebrados a mostra. Queria
que doesse, pensei.
- Surpreso? - ele perguntou, menos amedrontado agora que eu não tinha
armas - Você acha que só por que eu fui expulso daqueles mercenários eu ia
virar um ninguém? Ledo engano. Vim para cá fazer o que realmente sempre
quis: meu povo tem pequenas terras para suas pequenas famílias. São
felizes.
Não sou seu senhor, sou somente o que impede os invasores de destruir sua
felicidade. Não queremos o continente, queremos somente paz e comida.
Todos
eles são refugiados de nosso povo, que viram que o sonho de conquistar
melhores terras virou um sede insana de poder.
- E por que então fomos mandados para atacá-lo? - perguntei
- Você ainda pergunta? - disse ele.
Agora parecia que tudo havia se fechado. Era como se o cosmo tivesse feito
uma dança somente ao meu redor para entender o que devia ter visto quando
ainda jovem. Quando meu pai morreu lutando por suas terras, não por que as
queria, mas porque queria defender sua família. Não conseguiu salvar meu
irmão, e por isso acabou morrendo.
Coloquei minha mão direita, a mesma do ombro que estava ferido, no
ombro do
senhor. Ele tremeu, mas depois acalmou-se. Sorri para ele.Mesmo não vendo
pelo meu elmo, ele sorriu de volta.
- O general Horace está vindo com alguns novos soldad...- disso Rod,
entrando no sala e se espantando- Você não era ...
- Sim, Rod, meu ex-companheiro. Sim sou eu. Ainda acredita no que faz?
Os dois ficaram lá, provavelmente discutindo. Peguei uma espada e saí do
castelo, indo para a porta. Senti o cheiro de enxofre. Hela devia
estar por
perto. Senti meu ombro estalando. Senti dor. A alguns metros, Natasha
falava
com o general.
- Você não vai matá-lo?
Hela estava bem onde passei, encostada no portão do castelo. Parecia que
estava decidida a me seduzir, com um vestido verde colante a seu corpo
como
nunca vira antes.
- Não. - disse, voltando a andar para longe dela.
- Mas é seu papel. Seu general mandou-lhe fazer isto! Eu mando fazer isso!
Você não pode fazer isso!
- Posso e estou fazendo.
Andei até onde estava o general. Ele desceu de seu cavalo e falou-me.
- Grande trabalho, Caim. Você deverá ser condecorado ao voltar. Esta
peleja
será cantada em todos os castelos para os maiores nobres. Que feito!
Continuei andando, ignorando o general.
- Onde estão os outros? - perguntou-me
- Maurice está na muralha, precisando de cuidados. Rod está lá dentro
com o
senhor do castelo.
- Como? Você não o matou?
- Não.
- Então vá lá e o faça. Esta é sua missão.
- Não.
- Isto é uma ordem. Vá. Como general eu lhe ordeno.
- Como ser humano e guerreiro renomado, eu ordeno que se cale e vá lá
fazer
seu próprio trabalho sujo.
O silêncio tomou conta. O general ficou parado, sem entender o que
houve com
seu melhor guerreiro. Joguei fora de novo meu elmo. Ah, meu ombro doía
muito. Tinha me desacostumado a isto. Natasha correu e caminhou ao seu
lado.
- O que houve ? O que houve? - ela perguntava
- Eu decidi optar por mim mesmo. E por todos.
- Como assim?
Ele sentiu Hela berrando em algum lugar em fúria.
- Não quero mais a causa de ninguém. Quero a minha. Quero não matar mais
quem não é culpado de nada. Quero não ser um escravo de mim mesmo.
Quero me
permitir justiça e paz.
- Como assim? Eu não lhe entendo, eu te acompanhei por todo este tempo...
Ajoelhei-me de dor. As feridas que sempre controlara estavam doendo
mais do
que nunca. Senti os ferimentos de guerra se reabrirem. Deitei-me no
chão. O
céu girava. Os abutres giravam lá no alto de onde caíra. Sentia o
cheiro da
morte sendo expelido de mim. Natasha colocou minha cabeça em seu colo.
- O que é isso?
- Você já pensou em ... uma vez na vida... deixar o certo ser feito, e
....não fazer... o que acha que é... argh..... certo? Acho que tenho
que me
deixar... morrer... Ao invés de morrer... pelo que achava que era...
certo?
- Você não pode estar assim, você nunca esteve assim. Você é um
guerreiro! O
nosso único bom guerreiro!
- Eu nuca... chorei pelos.... que morreram... ou que matei... e isso
só fez
me.... matar... Não é preciso... matar... é só... fazer direito... o
direito....
A cachoeira como última visão da Terra. Nunca vou esquecer. Foi bom ir
para
o Inferno de novo e ser punido por Hela. Poder chorar pelo que fiz. Melhor
ainda. Descobrir que Jéssica não estava lá e ela estava o tempo todo
certa.
Agora pago pelos erros que fiz durante muito tempo. Mas pelo menos, no
fim,
fiz o certo. Deixei-me morrer, e não me matei por outros. Não me matei.


::caim::

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