Friday, June 02, 2006

:: CHInewsKI Online - Edição nº 24 - Rio de Janeiro, 5 de setembro de
2001::

Para Eliane seja ela quem for (agora)


Eliane não aceitava nada que ocorreu. Nada. Nem o que ela mesmo fez. Tudo
era ira. Sua vida não era nada antes dele. Foi para ele que abriu,
literalmente, o diário secreto de sua vida. Não podia deixar tudo ficar
assim. Seus sonhos, seus sentimentos. Jogados pelo ralo. Era
necessário algo
mais. O melhor era ignorar, ela pensava. Deixar o passado passar,
mesmo que
fizesse Museologia era o que se forçava acreditar.
Mas durante o sono de sua consciência, ela era cruel. Seguia o que os
outros
falavam. O desespero, numa quinta qualquer, foi tão grande que, após umas
tequilas, foi num templo de Exu. E comprou um bonequinho de vodu.
Colocou a
única coisa que não queimara ou rasgara do filha da mãe, uma cueca.
Alfinetou até a morte a peça dele, imaginando que estava o esfaqueando
até a
morte. Um amigo ligou e correram para andar de kart antes que a noite
acabasse. Agora decidira se entregar ao mundo. Mas o mundo era cruel,
e numa
batida, sua perna quebrou. Imaginou que era vingança do demônio, mas
também
culpou o desgraçado.
Ele não parava de persegui-la. Eram emails, telefonemas, mensagens
pelo ICQ.
O cara falava juras de amor! Um dia chegou na gota dágua. Após um encontro
no meio da rua, com um silêncio que berrava em seus ouvidos, ele mandou a
última mensagem. Desculpe se te deixei sem graça, mas isso será
normal. Que
babaca! Foi aí que resolveu amputa-lo de sua vida de vez. Queimou até o
boneco vodu no ódio.
Mas ainda não havia acabado. Ele insistia de certas formas discretas.
Continuava como um fantasma ao redor, andando no mesmo ambiente,
fazendo os
mesmo programas. Foi aí que ela fumou seu primeiro bagulho. Ela jurava que
daria qualquer coisa para esquece-lo. A dor que causara. Numa alucinação,
jurou ver uma moça vestida de escuro, com o mesmo cordão que o desgraçado
usava, com os ridículos cílios enormes que ele tinha. Ela balançou com a
cabeça, esperando uma resposta de Eliane. Ela fez que sim, sem entender
nada.
No dia seguinte, acordou de outra maneira. Sentia-se completamente
diferente. Resolveu mudar a cor do cabelo, o corte, o penteado, usar sua
poupança não para um enxoval com aquele filha da puta que o chifrara e
comprar roupas novas. Começou a refazer um ciclo de amigos que se
encaixavam
mais com esta nova pessoa. E em nenhum lugar de seu subconsciente
parecia se
lembrar dele.
Até que na noite de 3 de Agosto de 2001,foi enviado, não para ela, um
email
com um texto estranho dele. Ela leu e não sentiu nada. Nem ódio, nem pena,
nem rancor. Ficou mais do que realizada, sem saber o porquê. Ao dormir,
Morpheu veio ao seu lado e bateram um bom papo com aquela menina que
estava
escondida atrás do seu sono. Abel se contorcia, mas entendeu que nunca
mais
teria que lutar com Caim. Abel entendeu que não teria que enfrenta-lo e
morrer toda à noite. Podiam até se entender um dia que esquecessem a
história e a mágoa da traição entre irmãos. E Abel nunca mais morreu na
terra dos Sonhos.
O dia seguinte era um novo dia. A nova vida que construía parecia agora
estar mais real, menos ficção. Sua consciência aparentava ter percebido de
certas coisas que estava exagerando. E sentia-se estranha por manter-se
fumando mesmo que não sentisse mais falta (mesmo) daquela boca de
nicotina.
E fez-se Sol em seu sonho.


Ele não estava nada bem, apesar de estar melhor do que nunca. Mauro sentia
que faltava uma peça em sua vida que não fazia ela funcionar direito. E
achava que era ela. O que ele fizera? Por que não a esquecia? Não entendia
nada. Sabia que não tinha sido dos melhores caras, mas nunca tinha
sido mau
com ela. Não sabia o que estava sendo. E não tinha culpa da vida andar de
maneira tão irracional que não podia controlar.
Já fazia umas duas semanas que não a via. Somente em fotos e pensamentos.
Achava que sua vida estava melhor sem ela, mas achava que estava faltando
algo. Ela. Suas piadas, sua ironia, seu jeito...seu......ela. Sua nova
namorada, que acabara sendo o principal motivo do rompimento,
avisava-o que
havia algo errado. Um pensamento negativo o rondando. Ele sentia, mas
fugia
dele. Sentia que tudo era por tudo ter parecido um chifre, enquanto
não era
nada disso. Estavam dando um tempo, escambau!
Um dia chegou em casa e começou a escrever um texto para ela, um lindo
texto
de amor, onde colocava toda a falta que ela fazia. Planejava enviar
para ela
e, se tudo desse certo, bater um papo por telefone e seguir a vida com
menos
um trauma. Mas não conseguira acabar aquele texto. Após uma noite de
quinta
inconsciente de dor, descobrira que tinha cálculos renais. Nunca sentira,
nada, pareciam ter se criado tamanha era a falta dela. Seus pais falaram
que, em sua inconsciência, a única coisa sensata, se é que podemos dizer
isso, era algumas frases como Morra, Apodreça, e coisas malditas assim.
Sempre que pensava em voltar a acabara aquele texto, tentar colocar o que
sentia no papel, a dor voltava. Ele tentava manter uma comunicação com
ela,
falando que não podia jogar fora um relacionamento de cinco anos como se
nada fosse, mas a mágoa nela era grande, e ele não conseguia trabalhar as
palavras como habitué tamanho era o medo que sentia ao falar com ela.
Esbarraram-se um dia no Centro. Cada segundo que o silêncio tomava
conta era
uma facada em seus rins já abatidos. Por algumas frases, pareciam até se
entender. Seu coração se enchia de alegria e esperança por poder manter um
diálogo com aquela mulher por quem já dissera que amava. Mas deixou, como
sempre, besteiras escapulirem. Falou que estava indo encontrar a
mulher que
ela considerava ter sido trocada. Almoçou com Verônica, mas não conseguia
ver nada além do que ela poderia estar sentindo. Logo ao voltar para casa,
mandou um email sentido de ter deixado a situação ser embaraçosa e
dolorosa.
Recebeu um Nunca mais Quero Falar Com Você Matou o Resto de Amor que Eu
Sentia. E então se calou, porque tinha que respeita-la. Se realmente
sentia
algo, tinha que calar-se. E se calou. Sumiu. Nem voltou para sua faculdade
para não se esbarrarem.
Na noite de 2 de setembro de 2001, ele sonhou com ela. E tudo voltou a
tona.
Mas manteve-se quieto. Sonhou com ela e dois seres discutindo ao lado, um
homem com uma sobretudo preto e uma mulher com uma camisa sem manga,
também
de preto, que mais parecia sua irmã. Até os cílios enormes ela tinha!
Ele se
afastou de sua ex namorada, que brincava com um cachorro, e ficou entre os
dois seres, escutando a conversa.
"Mas eles não foram destinados para acabarem assim", disse ela,
sentada numa
pedra da Quinta da Boa Vista. "Mas ele tomou coragem. Resolveu seguir um
sonho e ver se ele dá certo"."Meu irmão, lembre-se do que houve da última
vez que alguém levou seu sonho para a Terra". "Mas eles mais me lembram a
primeira vez que fizeram isso, não é, rapaz?", e o lorde virou-se para
ele,
que sentia seu rosto se desconfigurar. Correu para um lago e viu seu
reflexo. Um homem sujo, alto, de longos cabelos, forte.
Um berro do lado. Eliane transformara-se num homem franzino, com um
rosto de
puro amor, esperando o irmão para brincar com o cachorro. Nas mãos de
Caim,
surgira uma pedra, e ele sentia uma vontade inusitada de bater no
irmão Abel
que cuidava do cachorrinho, sorridente. Correu para o irmão, que
olhava para
o correr feliz, achando que receberia um abraço. Caim, ao invés de fazer o
que fizera durante milênios, batera a pedra em seu rim. De novo. E de
novo.
Até ver seu rim no chão. Antes de conseguir entrar em pânico, a pedra
transformara-se em um buquê de flores com um cartão. Era de novo Mauro.
Tarde demais para desculpas, cedo demais para reencontros, dizia o cartão.
Ajoelhou-se e chorou.
"Falei que este é especial", disse o lorde para sua irmã. "Ela também.",
respondeu Morte. Ela se aproximou dela, que parecia nada ter sentido e
brincava com o cachorro e disse :"Não é hoje que você vai morrer, nem você
nem seu outro eu. Deixe-o escondido, mas não o mate. Ele voltará aos
poucos.Agora ele pode viver.". Eliane não se virava, mas escutava
atentamente. "Você não precisa se matar fumando mais cigarros de areia. O
deserto é passado, e só quer que você sinta as boas brisas de um
oásis". Ela
se virou e desapareceu, com um sorriso de ponta a ponta.
Mauro acordou, ainda escutando o lorde falar consigo. "A Terra não é o
lugar
de sonhos. Sua vida não é um filme." E ele se encarregava de juntar
todas as
coisas que sobraram enquanto escutava a voz."Se despeça do antigo
sonho, se
quer viver este novo. Deixe que eu me encarregue de faze-los ele se
cruzarem, não você."
Na churrasqueira de seu prédio, foi colocando objeto por objeto: fotos,
cartas, livros. Por último, queimou o livro da Mafalda que comprara no dia
em que acabaram. Escreveu antes uma dedicatória na contracapa do livro :
"Certos sonhos não merecem ser esquecidos, mas podem nunca mais serem
vividos.".
Subiu e escreveu um texto sob o pseudônimo de Caim, ainda sentindo a
presen,a do lorde por perto. Jurava escutar que estava fazendo o
certo. Que
mesmo que nunca completasse seu texto de amor, mesmo que nunca pudesse
explicar o que queria, o lorde um dia iria dizer o que aconteceu. E talvez
explicasse quando chegasse a hora certa. Talvez a irmã mais nova de Caim,
que lembrava sua irmã, também ajudasse. Acendeu um cigarro e sentiu a
fumaça
com um frio inexplicável. Sentiu que do outro lado da ponte ela também
estava acendendo o cigarro e sentindo o mesmo. Mesmo que não fosse no
mesmo
instante que entendemos. Nos sonhos, tudo é sincronizado e perfeito quando
queremos, mas a vida não. Porém, sabia que o lorde vai fazer a fumaça
chegar
lá. E que estará em formato de palavras. Não de sonhos. De vida. E ele ia
fazer suas vidas se cruzarem se fosse o certo. Se o sonho devesse ser
real.
Mas ele não tinha este poder. Este direito. Sabia que a vida não era um
sonho. Só quando permitido. Permitirmos.


::caim::

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