Friday, June 02, 2006

: : CHInewsKI Online - Edição nº 28 - Rio de Janeiro, 21 de Outubro
de 2001
: :

Um certo Capitão Baleia

Rua Uruguai, seis e quinze da tarde. Um engarrafamento tradicional pensava
Jorge no volante do 606. Já tinha fumado dois cigarros esperando os sinais
da rua deixarem-no passar. Finalmente, uma brecha perto do canal.
Acelerou o
carro, escutando os passageiros reclamarem. Parece que não querem
chegar em
casa logo, pensou. Ao fazer a curva acelerada, viu um homem, um mendigo,
parado no meio da passagem. Virou rápido em direção a subida de uma rua e
agora avistara um cachorro vira-lata andando lentamente por ela. Deu a
maior
freada de sua vida. Nunca ia se permitir atropelar um cachorro.
Os passageiros reclamavam atrás, xingando a mãe e toda sua família do que
era conhecido. Trazia sua mão para dar um trago de alívio quando a sentiu
puxada para baixo. O mendigo, com uma barba gigante, como naquelas figuras
de Moisés, puxou sua mão, pegou seu cigarro e falou-o: "Boa sorte, meu
amigo. Acabou de fazer nosso destino virar realidade.". Jorge fitou-o nos
olhos, tendo certeza que o reconhecia de algum lugar. O mendigo virou-se e
subiu a rua onde o ônibus parava em diagonal, a centímetros de um poste. O
vira lata entrou pela porta da frente e pulou no colo do motorista,
lambendo
toda sua cara. Ele rira e fizera sinal para o cachorro ir embora. Ele não
ia. Dava uma volta em si mesmo e voltava para lamber seu salvador.
Como se já fosse treinado, fez sinal para o cachorro sentar entre seu
banco
e a janela, o que fez obedientemente. Sentou-se com o peito estufado e
com a
cabeça virando ora para o lado, sentindo com as orelhas o vento, ora
observando com carinho João. Ele sempre quisera ter um cachorro, mas sua
mulher nunca o deixara. Dizia que era ruim por ter crianças pequenas em
casa. Agora o filho mais novo já tinha três anos, Mathias, talvez
fosse bom
ele ter um cachorro.
Foram seguindo o trajeto, escutando muitas reclamações pela freada e pelo
animal. Jorge ria como o cachorro abaixava a cabeça triste ao alguém
reclamar de sua presença. Parecia ser bem inteligente. Ao chegar no ponto
final, falou com seu supervisor do que acontecera, que evitara
atropelar um
mendigo e um homem e que o cachorro não queria ir embora. Antes que
levasse
uma bronca por quebrar as regras, o cachorro começou a se esfregar como um
gato nele. Aquilo quebrou todo o ataque, fazendo-o liberar o motorista
para
levar o cão para onde quisesse..
Morava ali mesmo no Engenho de Dentro, era uma das principais vantagens de
trabalhar nesta linha. Seus dois filhos estavam brincando de
"driblinho" no
quintal da casa. Ao escutarem o portão se abrindo, viraram e viram o novo
amigo do pai pulando ao seu lado, louco para entrar. O cachorro voou para
cima de Gabriel, o filho mais velho de sete anos, e começou a brincar com
eles e a bola como se já fosse velho amigo da família. "É você, Gê?",
berrou
sua mulher de dentro, com uma voz estridente. Odiava como ela o chamava de
Gê. "Sou, Lurdes". "Já to indo."
O pai chegou perto de Gabriel, vendo seus olhos marcados por uma rodela
roxa.
-Gabriel, o que houve? – perguntou, se ajoelhando ao lado do filho.
-Nada, pai.- respondeu ele, tentando se virar e esconder o machucado
do pai.
-Foram os garotos da escola de novo?
-Não ,pai , não foi nada.
-Você quer que eu faça algo?
-Deixa , pai. Deixa. –e saiu correndo pra casa, deixando o cão sozinho com
seu irmão menor, que o abraçava como um brinquedo de pelúcia.
Lurdes veio de dentro da casa. Sua roupa estava fedida de suor e
completamente molhada. Conversou com seu amor, dizendo que João Carlos, um
vizinho amigo do casal, estava consertando o chuveiro. Ele era daqueles
vizinhos quebra galho, sempre consertando algo da vizinhança para
sobreviver. Era engraçado como um homem bonito e bem apessoado não
conseguia
emprego e vivia de bicos.
Jorge entrou em casa e foi conversar com João. Falaram sobre a boa
campanha
do Fluminense no campeonato enquanto mexiam juntos no chuveiro. João devia
estar ali a horas, também fedia. O homem sempre suava nestes trabalhos e
ficava fedendo, pensava Jorge.
Depois de consertarem e se despedirem, Jorge tomou banho conversando com
Lurdes. Ela estava mais calma e aceitou o cachorro tranqüilamente. Jorge
chamava-o de Capitão, pelo porte que ele ficava com o peito estufado, mas
seus filhos cismavam de chamá-lo de Baleia, como em um livro que Gabriel
lera no colégio.
Jantaram juntos, Mathias sem parar de brincar com Baleia, que não cansava.
Parecia que nunca tivera em uma casa com crianças, e que já era da
família.
Jorge estranhava sua afinidade com o cão. Sempre quisera um, mas
aquele era
perfeito. Parecia um labrador, mas com uma mancha em seu olho direito.
Após ver a novela com a mulher, foram para a cama e ela negou fogo. Jorge,
estressado e sentindo falta das noites quentes que tinham, saiu para tomar
uma cerveja no boteco próximo. João estava lá, rindo com os outros
vizinhos.
Bateram um papo acompanhado de cinco cervejas. Jorge foi carregado para
casa, com João consolando-o do problema de sua mulher, tentando
explicar que
isso acontecia.

No dia seguinte, Lurdes ligou as três da tarde para ele. Queria se
livrar do
cachorro. Ao acabar uma viagem, aproveitou que morava perto e passou
lá para
almoçar e conversar com a mulher. Gabriel estava no quintal com o irmão e
Baleia, com um sorriso que nunca vira.
-Pai, não deixe a mamãe se livrar dele. – berrou, correndo para o portão.
-O que houve? – perguntou o pai, vendo Capitão sentando-se com o peito
erguid, como se numa saudação militar.
-O Baleia me protegeu dos garotos e mostrou quem manda.
-Jorge! Jorge vem cá!!!!
Conversou com a mulher. Ele falara que tinha recebido uma ligação do
pai de
um colega de Gabriel, que o cachorro tinha avançado em seu filho e mordido
feio sua perna. Jorge sabia que a história não devia ser bem essa. Não
tinha
nem vinte e quatro horas com o cão, mas sentia que podia confiar nele. Com
certeza, os garotos foram mexer com Gabriel e ele foi defender seu dono.
Lurdes queria se livrar do cão, que ele seria problema. Jorge falou
que não.
Ela insistiu, como que falando que ele não decidia nada. Ele fincou o pé e
berrou. "Ele fica!". Ela calou-se e olhou com medo para o esposo.
Capitão latia para o banheiro. "É o João, que está consertando o chuveiro.
Parece que não ficou direito ontem". "É verdade, a água continuou fria.",
respondeu. Comeram silenciosamente, a mulher olhando assustada para ele e
para o cachorro, que também latia para ela. Lurdes tentava enxota-lo, mas
ele não saía. Ele latia para ela e olhava para o dono.
Voltara para o trabalho, pensando nos latidos do cão. Será que ele não
gostava de sua mulher? Isso podia ser um problema. Mas ele não podia fazer
isso com seus filhos. E com ele. O cão deu auto estima para Gabriel, ora
bolas! Devia estar trazendo bons fluídos para a família.

Depois de duas horas, ao completar mais um trajeto do ônibus, foi
tomar uma
cerveja antes de sua última volta. No bar, viu Capitão sentado com uma
manga
de roupa na boca, com o peito estufado que já estava se acostumando a
ver. O
cão chegou perto e deixou a manga em seus pés. Foi aí que houve um
clique na
cabeça de Jorge.
Correu para casa, seguido de Capitão. Pulou o muro e entrou em casa. Sua
mulher se assustou. "Amor, o que você está fazendo em casa?...Cerveja, seu
vagabundo! Você não po...." "Cala a boca! Cadê o João?". Ela ficou quieta
por meio minuto e respondeu. "Ta lá dentro, consertando o chuveiro,
ora. Ele
pegou uma camisa sua porque a dele suj....". "Cadê a roupa dele, porra?!".
Ela ficou quieta, olhando para o cachorro, que começou a latir para
dentro.
Ele correu para dentro e viu a camisa em cima da cama. Sem uma manga. O
cachorro parecia sorrir para ele. Seu dono entendera. Pegou sua arma de
debaixo da cama e foi para o banheiro. "Rapaz, que você faz...Caralho, por
que você ta armado? Cara, era ela que queria, eu não quis
nada...Porra, cara
você sabe que eu não...". Um tiro na coxa. João caiu no Box gemendo de
dor,
mas sem xingar seu atirador. No fundo, ele sabia a merda que fizera.
Fora para a cozinha. Os joelhos da mulher tremiam. "Amor, não é o que você
está pensando....". Ele pegou a aba de seu vestido com a mão que
segurava a
arma e viu a mancha de gozo. "Isso aí não é o que...". Uma coronhada na
cabeça. "Amor, não é isso... Eu só estava querendo passar o tempo.". Outra
coronhada. Ela desmaiara. Jorge olhara para o cachorro. Ele olhara com um
rosto de despedida e correra para fora.
João arrastara-se para fora, choramingando. Não sabia por que fazia
aquilo.
Sua vida era de fazer bicos e de traçar as mulheres dos outros que ficavam
abandonadas em casa. Jogou-se na entrada da favela próxima e acendeu um
cigarro, esperando sangrar até o fim. Ele merecia.
Capitão viera correndo com a manga na boca. O homem não sabia se
ficava com
medo ou enchia o cachorro de porrada. Mas percebeu que o cachorro queria
falar algo. Ele trouxera a manga para fazer um...Torniquete? João fizera o
torniquete e tentara andar até em casa. Chegou até a porta e viu seu
pequeno
sobrado em chamas. A vizinhança, que antes adorava aquele homem, agora
cochichava e olhava com pena para ele. Um homem chegou perto dele e
dera um
murro no estômago. Baleia se colocara na sua frente e grunhia,
protegendo-o.
João arrastou-se até um viaduto e ficou ali em baixo. Alguns mendigos o
ajudavam, tacando cachaça na ferida ou tentando tirar a bala com facas
sujas
e tortas. Ficara ali por dias, meses talvez (perdera a noção do tempo com
desmaios, provavelmente de alguma infecção). Todos se ajudavam. Usava o
pouco dinheiro que tinha no bolso para pagar alguma comida as vezes, que
dividia com todos.
Tentara, depois de um bom tempo, ir para outro lugar e se reconstruir. Não
conseguia. Ninguém queria ajudar um homem fedido que nem tinha documentos
nem casa. Pensou em tudo que fizera em sua vida e decidiu se suicidar.
Andara até a rua Uruguai e ficara no meio da rua. Os carros desviavam.
Será
que não entendiam que ele queria morrer? Ninguém ia processa-los. O
cachorro
se afastava, percebendo que João ia se matar. Era hora de procurar uma
nova
família. Até que um ônibus, um 606, quase o atropelou. E também quase
atropelou o cachorro. Ele sabia quem era o motorista. Um cigarro! Chegara
perto do ônibus e pegara a mão do motorista, falando: "Boa sorte, meu
amigo.
Acabou de fazer nosso destino virar realidade.". E se afastara, após olhar
fundo nos olhos de Jorge.



::Tommy Molto::

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