Friday, June 02, 2006

:: CHInewsKI Online - Edição nº 32 - Rio de Janeiro, 15 de novembro de
2001::

Meu Primeiro Gradiente

Saiu correndo na hora do almoço. Não podia perder aquele emprego. Jamais.
Não pelo dinheiro, mas pelo bairro. Adorava. Perto de tudo. Do metrô, de Ipanema, do Flamengo. Principalmente da casa de Hélio.
Cumprimentou o porteiro do prédio. Antes ficava nervosa com isso , mas agora já se acostumara a freqüentar o prédio. Abriu e fechou a porta pantográfica com pressa. Só tinha uma hora e meia de almoço. Sorte que seu trabalho era a duas quadras dali.
Terceiro. Desceu. Também adorava aquele elevador. Quantas lembranças dele...
Andou pelo corredor varrendo sua bolsa atrás da chave. Lá no fundo, ao lado de fotos rasgadas. Tocou a campainha só para prevenir. Ninguém respondeu, então entrou. O cachorro dele veio pular em cima dela. Brincou um pouco com o pequeno beagle e foi para o estúdio de seu ex-namorado.
A parede toda era decorada de cds, lps e até instrumentos. No meio, uma bateria e os amplificadores. Na mesa de som, um sistema de áudio de fazer qualquer festa. Prestou atenção em como estava (dês)arrumado o lugar e pegou um dos lps pendurados. Este era especial mesmo. O vinil do último do Nirvana, In Útero. Colocou no toca discos, que imitava um gramofone, e foi direto para a faixa Heart Shaped Box.
Deitou-se no chão sujo de gimbas de cigarro, com o ouvido esquerdo bem próximo da caixa sonora. Fechou bem os olhos e ficou lembrando de quando se conheceram, no Hollywood Rock, na fila da cerveja, enquanto tocava esta música. Se ela tivesse que escolher uma trilha sonora para um momento como aquele , seria esta, sem dúvida. Alisou o carpete como alisou as costas dele naquela noite. Revoltou-se ao lembrar que toca discos não tem função de repetir a faixa. Lembrou de onde estava e resolveu colocar outro disco.
Pegou o último do Radiohead, e foi para You and Whose Army?. A música era bem triste, ajudava-a a voltar a realidade. O cachorro chegara perto dela e sentara-se perto da vitrola, também apreciando a música. Era impossível não ter aprendido isso, após dias e dias escutando seu dono tocar ou ouvir músicas. Desde bebê, ele fora educado assim. O Coelho bebê... ela lembrava....
Pegou o vinil dos Saltimbancos Trapalhões, que ela dera a ele em seu aniversário de trinta anos. Começou a pular e correr de um lado para outro, sendo seguida pelo cachorro. Uma pirueta, duas piruetas. Correu pela casa, chorando de tanto rir do cachorro. Foi pela cozinha, pela sala, e o cachorro vibrando por brincar com sua "mãe"...
Pelo quarto. Havia uma foto do Hélio com outra na mesa de cabeceira. Já faziam.... cinco meses? Ele a trocara por ela, filho da puta. Pegou sua bolsa e ia bater na foto até que se lembrou... sua coleção de músicas.
Não,
isso ela não podia perder. Ele, tudo bem, mas os álbuns... os instrumentos.
Jurava que mais um mês de almoços por ali e já saberia tocar todo o OK Computer. Nada que um pouco de inteligência e um livro de tablaturas não fizesse.
Colocou tudo de volta no lugar, exceto o Radiohead. Sentou-se no chão, tirou a guitarra de sua maleta e ficou ali, tentando tocar. As letras podiam até não falar nada, mas para ela falava. Ficou uma meia hora ali, até aprender a tocar mais uma música.
Arrumou tudo exatamente como estava antes de chegar. Agachou-se, brincou com seu bebê um pouco e foi para o elevador. Enquanto esperava o elevador, pensou se devolvia a chave. Olhou a foto rasgada que ainda não tirara da bolsa. Ela era tão cinematográfica que fizera um corte exato entre eles.
Lembrou de toda a coleção, de tantos compositores esperando para serem devorados, e entrou no elevador, jogando a foto pelo espaço entre o elevador e o fosso. "Quando saísse daquele emprego e o bebê crescesse, eu devolvo", pensou. Como todo dia.



::Tommy Molto::

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