:: CHInewsKI Online - Edição nº 28 - Rio de Janeiro, 10 de outubro de
2001::
Mais uma dose
Bar Luis, dez e meia da noite. O casal tomava sua quarta rodada quando um
homem de batina entra e senta na mesa ao lado.
-Por favor, uma dose de uísque.- falou o padre para o garçon, que
perguntou
duas vezes se tinha escutado certo. O padre falava alto e grosseiramente,
até que o graçon se convenceu.
O casal fitava-o insistivamente, chocados com a cena. E não só eles, o bar
inteiro. O padre olhava de volta com olhos de poucos amigos,e alguns
paravam
de foca-lo. Mas o casal não conseguia. Murmuravam algumas palavras um
para o
outro mas não davam atenção. Afinal, tinha um padre esperando um uísque ao
lado deles!
O uísque chegara. O padre abençoara a bebida e virara em um gole.
"Mais uma
dose!", berrou o homem de Deus, apontando para o copo. Sentindo que
ainda o
fitavam-no fixamente, virou-se para a mesa do lado e fez uma careta para o
casal. Não adiantara.
Virou a cadeira e sentou-se, com o encosto batendo em sua barriga.
-Algum problema, irmãos? - perguntou.
-Você é um padre? - perguntou ela, sem ter a menor vergonha.
-Sou um homem de Deus, se é isso que você quer dizer. Um membro da
porra da
Igreja católica.
-Porra? - perguntou ele, rindo como uma criança ao falar cocô- Você falou
porra?
-Falei, porque? Nunca escutou isso?- e ele ficara totalmente constrangido,
mas ainda rindo por dentro- Já sei, nunca imaginou ver um padre falando
estas coisas, né, mermão? Não é assim que falam, mermão?
-O senhor está bem?- ela perguntou
-Alguém está bem neste inferno?
E o silêncio tomou a alma dos dois enquanto o padre olhava ironicamente.
-Vocês se amam?- perguntou o padre, sinalizando para o garçon trazer a
bebida para a mesa do casal.
-...Acho que sim.- ele disse.
-Então eu os proclamo marido e esposa. Rá!- disse o padre, benzendo o
copo e
o casal.
-O que te aflige,...padre?-perguntou a mulher, colocando a mão sobre o
antebraço do padre.
-Você sabe que estamos morrendo, não sabe?- disse ele, colocando sua mão
sobre a dela e apertando- Você sente isso, não sente? Só não quer assumir?
Seus dedos suavam, tentava tirar mas o padre segurava forte.
-Pare com isso, cara.- berrou ele para o padre.
-Você sabe. Tem cara de quem sabe.- e largou a mão dela.
O casal ficou se fitando e a mulher começou a chorar. Seu marido foi
para o
lado dela abraçá-la, enquanto o padre roubava um Malboro da carteira
encostada na mesa.
-O Senhor está fazendo exatamente o que planejara. É uma merda, mas
estamos
chegando próximos ao período de tribulação.
-Que? - perguntou o jovem, com seu ombro melado de lágrimas.
-Tribulação. É quando os que realmente acreditam nele partem deste
mundo, e
só ficam nós, os podres. Nunca leram o Apocalipse?
-Já, mas não entendi.
-Não minta. Você entendeu. Quando dorme, ao menos, garanto que você
entende.
O que você acha que são estas matanças? Nós, os impuros, estamos fazendo o
papel de anjos do Senhor, levando seus filhos mais puros para seu lar.
Enquanto isso, ficamos aqui com a dor e ignorando tudo que se passa.
-Como o senhor pode acreditar nisso? Você não é um padre?- ela balbucia
-Sou, e profundo conhecedor da Bíblia. É por isso que tenho a certeza.
Vejo
o mundo claramente, e não consigo me perdoar por não conseguir fazê-los
verem o que se passa. Então resolvi ser realmente um impuro.
Preocupamo-nos
com nossas vidas e não vemos que matamos milhares por uns centavos a mais
nas contas.
-Mas padre,-ela fala- não há salvação?
-Se você acredita em sua existência como filha de Deus, tem que aceitar o
plano dele para nós. E ele nos avisou por um de seus filhos que este dia
chegaria. Não, por vários de seus pródigos filhos. João, Nostradamus,
Paulo.
O Jihad é o começo do fim do mundo que nós conhecemos.
-Você não pode ser um padre- falou ele- você está bebendo e fumando.
-Só estou tentando entender o porquê de ninguém ver o que se passa e não
tentar se salvar, salvar o próximo. O individualismo está nos matando.
Melhor, já nos matou.
-Não.- berrou ela.
-Cada vez que você passa na frente de um pobre e finge que não o vê, que
reclama do seu salário e não lembra do desempregado, que reclama da vida e
não pensa nos que não tem um quinto do que você tem, você prova que
chegamos
no estágio final. Só temos nosso umbigo e nada mais. Deixamos o anticristo
chegar ao poder, claramente roubando até nas eleições, e nos ajoelhamos a
ele. Podemos até não concordar com ele, mas nada fazemos.
-E o que poderíamos fazer? - ele pergunta.
-Se salvar, ao mínimo. Salvar um ao outro, talvez. Se tivessem força, até
mais pessoas.
-Nós vamos!- ela exclamava- Nós vamos.
-Não, não vão. Não da maneira que deve ser feito. Vocês salvarão os outros
para se salvarem. Para sentirem que ganharam pontos com o Senhor.
Vocês são
uns merdas como todos nós. E vamos morrer pela escória como vocês e eu.
O padre se levantou, deixou uma nota de dez e deixou o casal com as almas
mortas. Era hora de ir para um puteiro tentar fazer o mesmo com os bêbados
que procuravam uma solução de seus problemas na buceta mais bonita e
barata
que pudessem. Ele podia não conseguir Ter salvo ninguém, Ter feito se
mancarem antes, mas talvez fizesse-os morrerem de arrependimento. Já
poderia
ser algo. Mas nem ele mais tinha certeza. Também queria um bucetinha para
relaxar de sua sina.
O casal pensou no que estava acontecendo no mundo. Não, não na guerra
estúpida. Mas no mundo todo. E no dia seguinte, fizeram algo. Porém, na
semana seguinte, estavam no mesmo bar, com colegas de trabalho, enchendo a
cara e ignorando o mundo.
::Caim::
2001::
Mais uma dose
Bar Luis, dez e meia da noite. O casal tomava sua quarta rodada quando um
homem de batina entra e senta na mesa ao lado.
-Por favor, uma dose de uísque.- falou o padre para o garçon, que
perguntou
duas vezes se tinha escutado certo. O padre falava alto e grosseiramente,
até que o graçon se convenceu.
O casal fitava-o insistivamente, chocados com a cena. E não só eles, o bar
inteiro. O padre olhava de volta com olhos de poucos amigos,e alguns
paravam
de foca-lo. Mas o casal não conseguia. Murmuravam algumas palavras um
para o
outro mas não davam atenção. Afinal, tinha um padre esperando um uísque ao
lado deles!
O uísque chegara. O padre abençoara a bebida e virara em um gole.
"Mais uma
dose!", berrou o homem de Deus, apontando para o copo. Sentindo que
ainda o
fitavam-no fixamente, virou-se para a mesa do lado e fez uma careta para o
casal. Não adiantara.
Virou a cadeira e sentou-se, com o encosto batendo em sua barriga.
-Algum problema, irmãos? - perguntou.
-Você é um padre? - perguntou ela, sem ter a menor vergonha.
-Sou um homem de Deus, se é isso que você quer dizer. Um membro da
porra da
Igreja católica.
-Porra? - perguntou ele, rindo como uma criança ao falar cocô- Você falou
porra?
-Falei, porque? Nunca escutou isso?- e ele ficara totalmente constrangido,
mas ainda rindo por dentro- Já sei, nunca imaginou ver um padre falando
estas coisas, né, mermão? Não é assim que falam, mermão?
-O senhor está bem?- ela perguntou
-Alguém está bem neste inferno?
E o silêncio tomou a alma dos dois enquanto o padre olhava ironicamente.
-Vocês se amam?- perguntou o padre, sinalizando para o garçon trazer a
bebida para a mesa do casal.
-...Acho que sim.- ele disse.
-Então eu os proclamo marido e esposa. Rá!- disse o padre, benzendo o
copo e
o casal.
-O que te aflige,...padre?-perguntou a mulher, colocando a mão sobre o
antebraço do padre.
-Você sabe que estamos morrendo, não sabe?- disse ele, colocando sua mão
sobre a dela e apertando- Você sente isso, não sente? Só não quer assumir?
Seus dedos suavam, tentava tirar mas o padre segurava forte.
-Pare com isso, cara.- berrou ele para o padre.
-Você sabe. Tem cara de quem sabe.- e largou a mão dela.
O casal ficou se fitando e a mulher começou a chorar. Seu marido foi
para o
lado dela abraçá-la, enquanto o padre roubava um Malboro da carteira
encostada na mesa.
-O Senhor está fazendo exatamente o que planejara. É uma merda, mas
estamos
chegando próximos ao período de tribulação.
-Que? - perguntou o jovem, com seu ombro melado de lágrimas.
-Tribulação. É quando os que realmente acreditam nele partem deste
mundo, e
só ficam nós, os podres. Nunca leram o Apocalipse?
-Já, mas não entendi.
-Não minta. Você entendeu. Quando dorme, ao menos, garanto que você
entende.
O que você acha que são estas matanças? Nós, os impuros, estamos fazendo o
papel de anjos do Senhor, levando seus filhos mais puros para seu lar.
Enquanto isso, ficamos aqui com a dor e ignorando tudo que se passa.
-Como o senhor pode acreditar nisso? Você não é um padre?- ela balbucia
-Sou, e profundo conhecedor da Bíblia. É por isso que tenho a certeza.
Vejo
o mundo claramente, e não consigo me perdoar por não conseguir fazê-los
verem o que se passa. Então resolvi ser realmente um impuro.
Preocupamo-nos
com nossas vidas e não vemos que matamos milhares por uns centavos a mais
nas contas.
-Mas padre,-ela fala- não há salvação?
-Se você acredita em sua existência como filha de Deus, tem que aceitar o
plano dele para nós. E ele nos avisou por um de seus filhos que este dia
chegaria. Não, por vários de seus pródigos filhos. João, Nostradamus,
Paulo.
O Jihad é o começo do fim do mundo que nós conhecemos.
-Você não pode ser um padre- falou ele- você está bebendo e fumando.
-Só estou tentando entender o porquê de ninguém ver o que se passa e não
tentar se salvar, salvar o próximo. O individualismo está nos matando.
Melhor, já nos matou.
-Não.- berrou ela.
-Cada vez que você passa na frente de um pobre e finge que não o vê, que
reclama do seu salário e não lembra do desempregado, que reclama da vida e
não pensa nos que não tem um quinto do que você tem, você prova que
chegamos
no estágio final. Só temos nosso umbigo e nada mais. Deixamos o anticristo
chegar ao poder, claramente roubando até nas eleições, e nos ajoelhamos a
ele. Podemos até não concordar com ele, mas nada fazemos.
-E o que poderíamos fazer? - ele pergunta.
-Se salvar, ao mínimo. Salvar um ao outro, talvez. Se tivessem força, até
mais pessoas.
-Nós vamos!- ela exclamava- Nós vamos.
-Não, não vão. Não da maneira que deve ser feito. Vocês salvarão os outros
para se salvarem. Para sentirem que ganharam pontos com o Senhor.
Vocês são
uns merdas como todos nós. E vamos morrer pela escória como vocês e eu.
O padre se levantou, deixou uma nota de dez e deixou o casal com as almas
mortas. Era hora de ir para um puteiro tentar fazer o mesmo com os bêbados
que procuravam uma solução de seus problemas na buceta mais bonita e
barata
que pudessem. Ele podia não conseguir Ter salvo ninguém, Ter feito se
mancarem antes, mas talvez fizesse-os morrerem de arrependimento. Já
poderia
ser algo. Mas nem ele mais tinha certeza. Também queria um bucetinha para
relaxar de sua sina.
O casal pensou no que estava acontecendo no mundo. Não, não na guerra
estúpida. Mas no mundo todo. E no dia seguinte, fizeram algo. Porém, na
semana seguinte, estavam no mesmo bar, com colegas de trabalho, enchendo a
cara e ignorando o mundo.
::Caim::

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